quarta-feira, 28 de outubro de 2026

Genialidade, gambiarras e bastidores: os 50 anos do revolucionário Fiat 147

A inauguração da fábrica da Fiat em Betim (MG), em 9 de julho de 1976, marcou o início da história da marca italiana na produção nacional, e o Fiat 147 foi o carro que abriu essa trajetória. Cinco décadas depois, o primeiro modelo da Fiat fabricado no Brasil segue como referência de engenharia, soluções curiosas de bastidor e impacto no mercado automotivo do país.

O 147 impressionou na época por ser compacto por fora, mas capaz de acomodar muito bem quatro passageiros adultos. Para o jornalista do AutoPapo que acompanhou o lançamento, então com 22 anos e pouco mais de dois de profissão no segmento automotivo, era um feito de design e engenharia, no caso, engenharia europeia.

Um projeto europeu adaptado ao Brasil

O 147 era quase uma réplica do Fiat 127 italiano, lançado na Europa no final de 1971. Os dois eram semelhantes no design e no conceito mecânico, mas tinham diferenças estruturais importantes. Como as ruas e estradas brasileiras eram severas para os padrões europeus, o modelo nacional recebeu:

  • estrutura monobloco mais reforçada;
  • suspensão traseira independente com um inédito feixe de molas transversal, que deu ao carro brasileiro robustez construtiva superior à do europeu.

Outra novidade técnica foi o conjunto motor/câmbio disposto transversalmente na dianteira. A solução compactava a mecânica em um espaço pequeno, o que deixava mais área para os passageiros e para o porta-malas. O porta-malas, de bons 350 litros, só era possível com o estepe colocado no cofre do motor. Os rivais da Volkswagen, por sua vez, usavam motor a ar na traseira, um esquema bem mais obsoleto.

Por que o motor tinha 1.050 cm³

A cilindrada de 1.050 cm³ tem uma explicação tributária. O projeto previa 1.000 cm³, mas os italianos descobriram que as leis da época cobravam mais IPI de carros de até 999 cm³ do que dos que tinham motores de 1.000 a 1.300 cm³. Segundo o relato, a distorção veio de um trabalho feito no Congresso no final dos anos 50 pela Volkswagen, para que o Fusca 1200 pagasse menos IPI que concorrentes como DKW 1000 e Renault Dauphine/Gordini 850.

Por isso, o motor projetado para o carro brasileiro ganhou cilindrada maior, para se enquadrar na faixa de menor imposto e conseguir um preço mais competitivo. A falha só foi corrigida no governo Collor, no início dos anos 90, quando surgiram incentivos fiscais para motores abaixo de 1.000 cm³, cenário em que a Fiat se deu bem com o Uno Mille.

O caninho de escape e os problemas de câmbio

Nos primeiros 147 que chegaram para teste nas revistas Quatro Rodas e Oficina, da Editora Abril, o autor estranhou o diâmetro minúsculo do cano que saía do silenciador, pouco mais grosso que um dedo, para um motor de 47 cv. Os carros distribuídos à rede de concessionárias já saíram com um cano de maior diâmetro.

Segundo o autor, a engenharia italiana sabia que o tubo menor bastava para os 47 cv, mas o marketing provavelmente reclamou da impressão de motor fraco. Os primeiros proprietários ficaram satisfeitos com o carro, apesar dos típicos problemas de câmbio, que o afetaram por bastante tempo.

Dez anos de produção e legado

O primeiro carro nacional da Fiat impressionou o mercado por oferecer novas tecnologias, baixo consumo de gasolina, bom espaço interno e um porta-malas surpreendente para a época. O autor chegou a comparar o 147 de chassi número 00001, de 1976, com um dos últimos produzidos, em dezembro de 1986. Nesses 10 anos, o modelo evoluiu bastante, principalmente no câmbio, cujos engates melhoraram substancialmente.

Para o mercado brasileiro, o 147 marcou de forma indiscutível a indústria automotiva e deu o pontapé inicial para meio século de sucessos da Fiat no país.

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