As montadoras europeias querem mais tempo antes de cumprir novas exigências de conteúdo local que podem determinar quais carros elétricos terão acesso a incentivos públicos. A proposta faz parte do Industrial Accelerator Act, apresentado em março, e prevê que 70% dos componentes do trem de força sejam provenientes da Europa. Como o cálculo inclui as baterias, o ponto é especialmente sensível para fabricantes que ainda dependem de fornecedores asiáticos.
O que prevê a proposta
A legislação busca preservar empregos dentro da União Europeia diante do avanço das fabricantes chinesas e da crescente dependência tecnológica externa. Pela proposta atual, três componentes europeus da bateria, incluindo as próprias células, seriam exigidos seis meses depois da entrada em vigor das regras. Três anos depois, esse número subiria para cinco componentes.
Entre os componentes considerados estão:
- packs e células;
- eletrólitos;
- materiais de ânodo e cátodo;
- sistemas de gerenciamento térmico;
- módulos eletrônicos de controle.
Ministros da União Europeia continuam discutindo diferentes pontos do texto, e a implementação não é esperada antes de 2027.
O pedido da indústria
Maria Linkova-Nijs, responsável pelo tema na associação ACEA, afirmou em 1º de outubro que as metas de localização das baterias são particularmente difíceis. Segundo ela, a indústria não enxerga hoje um caminho viável para cumprir todas as exigências dentro do cronograma proposto pela Comissão Europeia. A ACEA quer que os prazos sejam ampliados para três e cinco anos, respectivamente, permitindo uma adaptação mais gradual de fabricantes e fornecedores.
Sigrid de Vries, secretária-geral da ACEA, afirma que a Europa precisa desenvolver suas cadeias de fornecimento e reduzir os custos de produção locais. Segundo a entidade, exigências excessivamente rígidas poderiam diminuir a oferta de elétricos acessíveis, dificultar o cumprimento das metas europeias de emissões de CO2 e favorecer ainda mais concorrentes estrangeiros, principalmente chineses, que já contam com uma cadeia de produção competitiva em custos.
Gargalos da cadeia de baterias na Europa
Hoje, empresas asiáticas como a chinesa CATL e a sul-coreana LG Chem fornecem grande parte das baterias usadas em elétricos e híbridos plug-in vendidos na Europa, tanto de instalações no exterior quanto de fábricas que já mantêm no continente.
Os projetos locais têm enfrentado dificuldades. A Stellantis chegou a planejar três gigafábricas europeias por meio da ACC, parceria com a Mercedes-Benz, mas parte dessa estratégia foi reduzida. A ACC já produz células para a Stellantis em uma nova fábrica na França, enquanto seus projetos na Alemanha e na Itália foram colocados em espera. A Stellantis também tem um acordo com a CATL para construir uma gigafábrica na Espanha. A sueca Northvolt declarou falência, e a Verkor, que tem acordo para fornecer baterias de alto desempenho à Alpine, marca do Grupo Renault, ainda não iniciou sua produção.
Um estudo encomendado pela ACEA à Mobility Global concluiu em setembro que a capacidade europeia de produção de baterias continuará insuficiente para a demanda prevista. Muitas fábricas foram projetadas para baterias NMC, enquanto as células LFP, de menor custo, ganham espaço. O relatório também aponta dificuldade para obter materiais ativos de cátodo e ânodo na Europa, com oferta suficiente possivelmente disponível apenas a partir de 2038, e lembra que células produzidas no continente seguem significativamente mais caras que as asiáticas. Além disso, alerta que a capacidade anunciada para novas gigafábricas não deve ser tratada automaticamente como capacidade efetivamente disponível.
Fabricantes de baterias defendem as regras
Os fabricantes europeus de baterias defendem as exigências, argumentando que são necessárias para reduzir a dependência da China e preservar empregos. Uma carta enviada à Comissão Europeia recebeu apoio de empresas como ACC, Verkor e Albemarle, além de participantes de diferentes etapas da cadeia. A organização Transport & Environment e a Eurobat, associação das fabricantes europeias de baterias, também apoiaram o documento e as regras de conteúdo local.
O debate ocorre em meio ao forte crescimento dos elétricos na Europa, impulsionado também pela alta recente dos combustíveis. Na França, os modelos totalmente elétricos alcançaram 42% das vendas em setembro, aproximadamente o dobro da participação de setembro de 2025. Para o mercado brasileiro, o episódio mostra como a disputa por cadeias locais de baterias, hoje muito ligada a fornecedores asiáticos, pode influenciar custos, oferta e a competitividade dos elétricos, tema que também interessa a quem acompanha a chegada de marcas chinesas e a eletrificação por aqui.
