quinta-feira, 1 de outubro de 2026

Etanol de milho ganha força no Brasil e ajuda no barateamento do combustível

Etanol de milho ganha força no Brasil e ajuda no barateamento do combustível

Usinas de etanol de cana-de-açúcar estão erguendo plantas de milho ao lado de suas unidades para continuar produzindo durante a entressafra, entre dezembro e março. O movimento é o capítulo mais recente da ascensão do cereal, que já responde por mais de um quarto do etanol fabricado no país e tem mudado a dinâmica de oferta do combustível nos postos.

A Aplus, empresa de engenharia de Blumenau (SC) especializada em biocombustíveis, por exemplo, tem dois contratos desse tipo em andamento, com a Atvos e a Aroeira, e outros cinco em negociação no Sudeste, sob sigilo.

Segundo Alessandro Salvador, sócio-fundador e diretor comercial da empresa, a lógica está na complementaridade entre as culturas. Como a cana precisa ser moída logo após a colheita, as usinas tradicionais param na entressafra.

O milho, por ser armazenável, permite rodar o ano inteiro e aproveitar melhor a estrutura administrativa, os laboratórios e a armazenagem. O bagaço da cana alimenta as caldeiras que geram vapor e energia para a planta de cereal.

O custo também pesa. Salvador cita o caso de um cliente cuja usina de etanol construída do zero saiu por cerca de R$ 1,4 bilhão, enquanto a unidade de milho erguida depois, ao lado, custou cerca de R$ 900 milhões.

De 80 milhões a 10 bilhões de litros

Na safra 2014/15, o Brasil produziu 80 milhões de litros de etanol de milho, segundo a União Nacional do Etanol de Milho (Unem). Em 2020/21, foram 2,6 bilhões. Na safra 2025/26, encerrada em março, o volume chegou a 10,17 bilhões de litros, alta de 29,8% sobre o ciclo anterior, de acordo com a Conab. O cereal respondeu por pouco mais de 27% dos 37,5 bilhões de litros produzidos no país, recorde da série histórica.

A produção se concentra no Centro-Oeste, sobretudo em Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e Goiás, onde a segunda safra de milho garante matéria-prima abundante. Para 2026/27, a Unem projeta cerca de 12 bilhões de litros, e o presidente da entidade, Guilherme Nolasco, estima que o país possa chegar a cerca de 20 bilhões até 2032.

O que muda para o motorista

O efeito mais direto aparece na bomba. Historicamente, a entressafra da cana reduzia a oferta e exigia grandes estoques, o que fazia o preço do etanol oscilar no início de cada ano. Com as usinas de milho operando continuamente, a diferença entre os períodos de safra e entressafra diminui.

Isso tende a reduzir a volatilidade e a manter o etanol competitivo frente à gasolina por mais meses, avaliam analistas do setor.

Segundo Nolasco, a oferta adicional também viabilizou a elevação da mistura obrigatória de etanol anidro na gasolina para 32%, o chamado E32, sem comprometer o abastecimento.

O avanço tem ainda reflexo no campo: a demanda das usinas passou a sustentar o preço do milho ao produtor.

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