quinta-feira, 1 de outubro de 2026

Nova VW Amarok com base chinesa provoca crise na indústria de autopeças da Argentina

A troca de geração da Volkswagen Amarok vai muito além de uma mudança de plataforma ou de motorização. Depois de 16 anos produzindo a picape atual em General Pacheco, na Argentina, a Volkswagen prepara uma sucessora baseada na chinesa SAIC Maxus Interstellar X. Enquanto isso, boa parte da cadeia local de fornecedores montada em torno do modelo antigo perde contratos, reduz operações e, em alguns casos, já se prepara para fechar fábricas.

Nova Amarok é muito mais chinesa que argentina

Ao anunciar oficialmente a nova geração, a Volkswagen destacou a participação dos times sul-americanos de engenharia, desenho, testes e calibração. Segundo a fonte, esse trabalho serve principalmente para adaptar suspensão, direção, eletrônica e comportamento dinâmico às condições locais.

Isso não muda o fato de que a base do projeto é a Maxus Interstellar X, desenvolvida pela SAIC na China e já vendida por lá com diferentes opções de motorização. A futura Amarok usa a arquitetura da picape chinesa, compartilha boa parte de sua estrutura e pode aproveitar soluções mecânicas já disponíveis ou em desenvolvimento pela SAIC. A consequência é menor dependência de fornecedores e de engenharia local.

Isso não significa que a nova picape seja simplesmente uma Maxus com logotipo da Volkswagen, já que a marca trabalha em mudanças importantes de calibração. Mas a produção continuar em Pacheco não quer dizer, necessariamente, o mesmo nível de integração com a indústria argentina.

Fornecedores ficam sem contratos

Segundo levantamento do Autoblog Argentina, apenas 16 dos 60 fornecedores locais que atendem a Amarok atual participam do novo projeto. A geração atual nasceu de um projeto alemão e ajudou a formar, ao redor de General Pacheco, uma rede de empresas locais ao longo de mais de uma década.

Os exemplos já aparecem:

  • A alemã Kromberg & Schubert, que chegou à Argentina em 2009 para produzir chicotes elétricos exclusivamente para a picape, anunciou que encerrará sua fábrica ao fim de 2026, deixando mais de 200 trabalhadores sem emprego.
  • A Irauto, ligada ao Grupo Antolin e responsável pelos revestimentos internos do teto, ficou fora do novo projeto e decidiu abandonar o país, com perda prevista de outros 80 postos de trabalho. Parte da operação pode ser transferida para a Trefelt, outra fornecedora ligada à Volkswagen, mas não há confirmação oficial.
  • A Pelzer System, instalada no Parque Industrial de Pilar desde 2009 para fazer isolamento acústico e carpetes da Amarok, chegou a empregar cerca de 100 pessoas e hoje mantém apenas 13. A empresa tenta encontrar novos clientes depois de saber, no início do ano, que não participaria da nova geração.
  • Motherson, Caimari e Albano Cozzuol seguem negociando alguma participação, mas já trabalham com a perspectiva de volumes e contratos menores.

Segundo a associação argentina de fabricantes de autopeças, a AFAC, 63 empresas do setor fecharam ou cancelaram projetos no país desde 2009. Somente em 2025, foram perdidos cerca de 4.100 empregos.

Um momento difícil para a indústria argentina

O baque acontece num período delicado para o setor como um todo. Várias marcas já vinham reduzindo produção ao longo de 2026. Só no primeiro semestre, a fabricação nacional de veículos caiu 18,3%, pressionada pelo encerramento de diversos modelos e por uma demanda regional mais fraca.

Em El Palomar, a Stellantis reduziu o ritmo das linhas do Peugeot 208 e 2008 diante da menor demanda na Argentina e no Brasil. No complexo de Ferreyra, eliminou um dos dois turnos dedicados à Fiat Titano e à Ram Dakota, cuja previsão conjunta caiu de 27 mil para 16,5 mil unidades em 2026, uma redução de quase 40% sobre a estimativa original.

Nem a Ford Ranger, que segue entre as picapes médias mais vendidas na Argentina e no Brasil, escapou. A fabricante decidiu diminuir a velocidade da linha de General Pacheco para adequar o volume à demanda regional, mesmo com a unidade entre as poucas do país que produziam mais do que no ano anterior e com novos investimentos mantidos no projeto.

Nova Amarok chega em 2027

Como despedida da geração atual, a Volkswagen apresentou a série especial limitada Unlimited, disponível na Argentina e no Brasil. A próxima linha tem data para chegar ao mercado: primeiro trimestre de 2027.

A marca confirma apenas que a nova picape será híbrida, sem detalhar oficialmente o conjunto mecânico. Em abril, o Motor1.com Brasil revelou informações exclusivas sobre a versão de topo, segundo apuração do CEO Fábio Trindade: ela será lançada como Amarok 800 TSI, em referência aos 800 Nm (81,6 kgfm) de torque combinado do sistema híbrido plug-in. O conjunto deverá superar 470 cv, ter tração integral e acelerar de 0 a 100 km/h em menos de cinco segundos. A estratégia deixa para trás o tradicional V6 turbodiesel e aposta na eletrificação sem abrir mão da performance.

Para o mercado brasileiro, que recebe a Amarok produzida na Argentina, a mudança indica que a próxima geração chegará com uma origem industrial bem diferente da atual, enquanto a cadeia de fornecedores que sustentou a picape por 16 anos encolhe. A produção segue em Pacheco, mas o modelo deixa de ser um projeto alemão profundamente integrado à indústria local.

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