segunda-feira, 28 de setembro de 2026

Ford Ranger T1: descobrimos como é a vida de navegador de rali

Antes de acelerar, é preciso aprender a entrar. Antes de correr, é preciso aceitar o desconforto. E antes de pensar em velocidade, é preciso entender que, no rali, cada segundo é resultado de preparação, sacrifício e confiança.

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Entrar em uma picape de competição não é como entrar em um automóvel convencional. Não há estribo, acabamento ou espaço sobrando. O banco é cercado por barras de aço. O cinto prende o corpo. O capacete limita os movimentos. O motor ocupa o ambiente com um ruído que impede qualquer conversa.

É nesse cenário que pilotos e navegadores passam horas dentro de carros capazes de atravessar milhares de quilômetros fora de estrada em velocidades que são desafiadoras até mesmo no asfalto, com toda aderência e visibilidade à frente.

As Ranger T1 e T1+

Foi no interior de São Paulo que tivemos contato com as Ford Ranger T1 e Ranger T1+, da equipe Sizmic. As duas são desenvolvidas pela Neil Woolridge Motorsports (NWM), parceira da Ford na África do Sul, e utilizam apenas a identidade visual da Ranger de produção. O restante foi concebido para competição.

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A Ranger T1 utiliza o motor V8 do Mustang e o ronco com escapamento livre é simplesmente brutal (Foto: Ford | Divulgação)

A T1 é equipada com o Ford V8 5.0, semelhante ao utilizado pelo Mustang. São 385 cv e 57,6 kgfm de torque, enviados para as quatro rodas por meio de um câmbio sequencial Sadev de seis marchas e sistema 4×4 permanente.

A suspensão utiliza amortecedores duplos BOS. Os freios são Brembo, com sistema a ar na dianteira e a água na traseira. A carroceria combina fibra de vidro, carbono e kevlar (material utilizado em coletes a prova de balas e na blindagem do helicóptero de guerra AH-64 Apache). O resultado é uma picape capaz de acelerar de 0 a 100 km/h em 7,1 segundos e atingir 185 km/h.

A T1+ segue a mesma receita básica, mas troca o V8 por um V6 3.5 EcoBoost biturbo. São 390 cv e 57,1 kgfm. A transmissão Sadev, a tração 4×4 permanente, os amortecedores duplos BOS e os freios Brembo são mantidos.

A carroceria passa a ser feita de fibra de carbono, além de contar com pneus e bitolas maiores, assim como novos elementos aerodinâmicos. O 0 a 100 km/h cai para 6,5 segundos. A velocidade máxima é de 170 km/h.

Quando conforto deixa de existir

Os números impressionam, mas não explicam o que significa estar dentro de uma dessas máquinas.

Para reduzir peso, tudo que não é necessário para competir foi eliminado. Não há espaço para comodidades. Não há preocupação com silêncio. Não existe conforto como prioridade.

JABULAS RANGER T1
Entrar na picape não é fácil, principalmente se o “navegador” carrega seis sacos de arroz extras sob o macacão – que obviamente não fechou (Foto: Marcelo Jabulas | AutoPapo)

Para entrar, é preciso pisar no estepe instalado abaixo do cockpit. Depois, vem o contorcionismo para atravessar a gaiola de proteção. Capacete e protetor de pescoço tornam o movimento ainda mais difícil.

E se o passageiro estiver fora do peso ideal, tudo fica mais difícil. E quando o carona está muitos quilos além do recomendado pelo médico (como é o caso deste que vos escreve), a manobra é extenuante, principalmente para os assistentes da equipe que precisam acomodar uma carcaça rechonchuda num assento projetado para as medidas do navegador do time. Uma vez sentado, o corpo fica preso por um cinto de cinco pontos.

Piloto e navegador praticamente deixam de ter liberdade de movimento.

A comunicação acontece pelo sistema de áudio dos capacetes. Mesmo assim, falar não é simples. O V8 da Ranger T1 transforma o cockpit em uma caixa acústica. No T1+, o V6 biturbo produz um assobio diabólico, que parece que estamos no Interceptor de Mad Max.

Na frente, não existe uma central multimídia ou um painel pensado para conforto. Há instrumentos de competição. Hodômetro. Conta-giros. Cronômetro. Planilha digital.

Tudo tem uma função e manusear tudo isso com solavancos, velocidade e força centrífuga é torturante.

O trabalho que não aparece

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Manter o carro em funcionamento pleno, diante de tanto esforço só é possível graças a dedicação de um time de mecânicos e assistentes que revisam tudo a cada fim de especial (Foto: Ford | Divulgação)

A experiência também deixa claro que pilotar é apenas uma parte do trabalho. O navegador tem a missão de transformar informações do percurso em comandos para o piloto. É ele quem indica a intensidade das curvas, alerta sobre obstáculos e antecipa mudanças do terreno.

Não existe tempo para hesitação.

Em uma prova de rally raid, piloto e navegador não conhecem cada metro do percurso como acontece em uma pista convencional. Eles precisam confiar nas informações recebidas e reagir a um terreno que muda o tempo inteiro.

Uma pedra pode aparecer. Uma valeta pode ficar mais profunda. A areia pode mudar de consistência. A aderência pode desaparecer em uma fração de segundo. E o carro precisa continuar avançando.

Na Sizmic, a Ranger T1 é conduzida por Bia Figueiredo e Marcos Baumgart, com Beco Andreotti como navegador. A T1 Plus tem Marcos Baumgart como piloto e Kleber Cincea como navegador.

No Rally do Jalapão 2026, a T1 terminou como campeã, com 11h11min07s69 em um percurso superior a 1.300 km. A T1 Plus estreou no Rally dos Sertões 2026, prova de aproximadamente 4.000 km, com tempo total de 54h40min15s16.

Segundos construídos durante anos

Lembra que comentei sobre corpo em forma? Pois é, entrar do T1+ era impossível para minha carcaça, pois a porta é menor o espaço para acessar o cockpit é mínimo. Na T1, também não é fácio, mas como não foi o primeiro protótipo que “me compactaram”, sabia que me caberia. Foi difícil, mas com um pouco de força e contorcionismo, deu certo. Depois de devidamente amarrado, só pensei num único ponto: “ainda falta sair”.

Quando Bia Figueiredo acelera a Ranger T1, o V8 invade o cockpit. O corpo é pressionado contra o banco. O som toma conta de tudo. A paisagem começa a passar rápido demais para ser observada com atenção.

A orientação é simples: “esqueça a navegação, vamos apenas se divertir.” Ainda bem! Mas diversão é apenas a parte que aparece para quem está dentro do carro por alguns minutos.

Por trás dela existe uma rotina que começa muito antes da largada. Existe treinamento. Preparação física. Conhecimento técnico. Estudo. Experiência. Desenvolvimento do equipamento. Manutenção. Planejamento. E, principalmente, confiança entre duas pessoas que precisam tomar decisões em alta velocidade.

Já tive a oportunidade de andar em carros de rali outras vezes. Mas nenhuma experiência se repete. Uma pista permite decorar referências. O rali não.

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Numa prova de rally raid tudo é imprevisível, pois a passagem dos carros deformam a trilha que criam obstáculos e armadilhas (Foto: Ford | Divulgação)

Mesmo em um circuito de demonstração, cada passagem modifica o terreno. Pneus escavam o solo. Pedras ficam expostas. Valetas aparecem. A aderência muda. O comportamento do carro muda.

A velocidade, portanto, não é apenas uma questão de acelerar. É saber quando frear. É interpretar o terreno. É confiar no navegador. É conhecer o carro. É suportar horas de impacto. É manter a concentração quando o corpo pede descanso.

E é aceitar que, para chegar ao fim de milhares de quilômetros de competição, cada pequeno detalhe precisa funcionar.

Dentro de uma Ranger de rali, fica difícil imaginar que exista algo simples na busca por alguns segundos. A velocidade que parece instantânea para quem assiste é construída durante anos de dedicação. E no fim de toda maratona, só há lugar para uma dupla no pódio.

E se me faltava motivação para a dieta, acabei de encontrar!

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