A Alpine apresentou o A310 Vision no Salão do Automóvel de Paris. O carro-conceito reinterpreta, com linguagem visual contemporânea, o esportivo de mesmo nome produzido entre 1971 e 1984. É mais uma aposta do Grupo Renault no carisma de seus modelos do passado e, ao mesmo tempo, uma prévia de soluções de design e engenharia que a marca pretende usar em um novo cupê elétrico, previsto para chegar ao mercado no final de 2028.
Uma homenagem com olho no futuro
O estudo celebra duas datas: os 55 anos do Alpine A310 original, de quatro cilindros, e os 50 anos do lançamento da versão V6. Ele também faz parte da renovação da linha da fabricante, que já lançou os elétricos A290 e A390 e prepara uma nova geração do A110.
O projeto foi desenvolvido sob a direção de Antony Villain, responsável pelo design da Alpine desde 2012. Para criar o conceito, a equipe colocou um exemplar do A310 original dentro do estúdio, usando-o como referência para reinterpretar proporções e elementos do esportivo dos anos 1970. O modelo original foi assinado por Michel Beligond, com retoques finais de Yves Legal e forte inspiração em uma proposta anterior do ítalo-britânico Trevor Fiore.
Design: proporções incomuns e soluções curiosas
O resultado é um cupê de proporções incomuns para os padrões atuais: 4,55 metros de comprimento, 2,03 m de largura e apenas 1,18 m de altura. A carroceria baixa e larga, com para-lamas pronunciados, remete especialmente ao A310 V6 equipado com o Pack GT, conjunto de modificações aerodinâmicas inspirado nas versões de competição. As rodas, de três raios, lembram um dos modelos de aros usados no A310 original.
A carroceria é de alumínio, e não mais de fibra, e combina superfícies arredondadas com elementos aerodinâmicos de aparência mais agressiva, principalmente na parte inferior, pintada de preto e com um quê de Fórmula 1.
- Faróis "pop-down": em vez dos conjuntos escamoteáveis convencionais, que se levantam, a cobertura se move para baixo e revela a iluminação dianteira. É uma releitura dos faróis sob coberturas transparentes do A310 de 1971.
- Traseira: o vidro convencional dá lugar a uma estrutura com superfícies parcialmente transparentes, uma faixa luminosa vermelha e um grande aerofólio, que faz referência à persiana dos antigos A310 V6.
- Interior: ainda não foi apresentado por completo. Pelo teto translúcido, é possível ver dois instrumentos digitais redondos, bancos tipo concha e comandos físicos que lembram equipamentos de áudio tradicionais, numa tentativa de unir recursos atuais a elementos que envelheçam menos que as grandes telas.
Por baixo: plataforma APP e o futuro A310
Embora seja um protótipo de estilo, o A310 Vision usa a plataforma modular APP, desenvolvida para a próxima geração do A110 elétrico. As baterias ficam divididas em dois conjuntos, à frente e atrás dos ocupantes, e não no assoalho. Isso mantém os bancos mais próximos do solo e favorece a posição de dirigir típica de um esportivo, além de contribuir para a altura reduzida do conceito, que tem apenas dois lugares.
O A310 de produção, porém, deverá adotar quatro assentos em disposição 2+2, como o original. Segundo a imprensa francesa, a versão de série deve usar bateria de aproximadamente 78 kWh, com um recorte para acomodar os pés dos passageiros de trás. Isso obrigará a Alpine a elevar um pouco a carroceria e a posição dos ocupantes em relação ao conceito. Também estão previstas versões com tração traseira e integral. A Renault ainda não divulgou números de potência, desempenho ou autonomia.
O próprio Antony Villain advertiu que o carro mostrado em Paris não deve ser visto como reprodução fiel do modelo que chegará às concessionárias, mas confirmou que o protótipo não é um mero exercício de estilo, sem relação com os futuros produtos da marca.
A plataforma APP admite até motores a combustão, possibilidade que ganhou força depois que a Horse, empresa formada por Renault, Geely e Aramco, apresentou um V6 3.0 biturbo de 544 cv para aplicações híbridas. O motor tem lançamento previsto para o final de 2028, época em que o novo A310 deve chegar. Por ora, não há confirmação de que os dois projetos estejam relacionados.
O A310 original
Para os brasileiros, os Alpine mais conhecidos são o A108, fabricado aqui como Willys Interlagos, e o A110, famoso pelas vitórias nos ralis europeus. O A310, lançado em 1971, nunca alcançou a mesma fama, mas levou a marca ao segmento dos grã-turismo. Tinha carroceria de fibra de vidro sobre chassi de viga central, configuração 2+2 e mais conforto, mirando esportivos como o Porsche 911.
Em 1976, o modelo trocou o motor de quatro cilindros pelo V6 PRV de 2,7 litros e 150 cv, desenvolvido por Peugeot, Renault e Volvo, o que trouxe mais torque, velocidade máxima próxima de 220 km/h e uma frente redesenhada, com quatro faróis no lugar dos seis originais. A suspensão traseira foi modificada em 1981, com solução derivada do Renault 5 Turbo. Até 1984, foram produzidos 11.616 exemplares, 9.276 deles com motor V6. O sucessor foi o Alpine GTA, lançado em 1985.
O que significa para o mercado brasileiro
O A310 Vision ainda é um conceito, e a própria Alpine avisa que o carro de série será diferente. Mesmo assim, ele mostra o caminho da marca: esportivos elétricos que bebem na história, com design marcante e foco na experiência de dirigir. Para o entusiasta brasileiro, que tem no Willys Interlagos um elo direto com a Alpine, o projeto reforça a aposta da Renault em resgatar o próprio passado.
