Herlander Zola, presidente da Stellantis na América do Sul, afirmou que o grupo pode ampliar suas alianças com montadoras chinesas e se associar a mais uma, duas ou até dez marcas do país para manter a competitividade na região. A declaração foi feita em um almoço com jornalistas, em meio ao avanço das fabricantes chinesas em um mercado no qual a Stellantis responde por quase um quarto das vendas de veículos.
Leapmotor é estratégica, mas não é a única opção
O grupo reúne Fiat, Jeep, Peugeot, Citroën e Ram, além da chinesa Leapmotor, incorporada recentemente ao portfólio para ampliar a capacidade de disputar espaço com rivais asiáticas. Para Zola, a parceria com a Leapmotor é estratégica, mas não encerra as possibilidades: acordos com a Dongfeng ou outras empresas podem garantir tecnologia, escala e produtos.
A Dongfeng, presente no Brasil sob a marca DFM, já discute com a Stellantis a ampliação para a América do Sul de uma aliança existente na China. As conversas incluem:
- a possibilidade de produzir veículos em fábricas que o grupo já mantém na região;
- o desenvolvimento de novos produtos em conjunto.
Segundo Zola, a cooperação com a Dongfeng pode ganhar na América do Sul uma dimensão maior do que em outras regiões, após avançar nos últimos meses. A fabricante chinesa também negocia uma cooperação local com a Nissan, em paralelo às tratativas para aprofundar a relação com a Stellantis.
Plano de investimentos e discussão sobre CKD
O ritmo de expansão das marcas chinesas levou a Stellantis a rever o calendário de lançamentos e tecnologias previsto em seu planejamento estratégico. A revisão ocorre durante a execução de um plano de investimentos de R$ 30 bilhões no Brasil até 2030, agora ajustado às mudanças do mercado.
Uma das discussões envolve a desoneração da importação de veículos desmontados (CKD) ou semidesmontados (SKD) provenientes da China. Zola defende condições equivalentes de competição e avalia que incentivos a esse modelo também poderiam atrair fabricantes estabelecidas, interessadas em reduzir custos. O efeito sobre o emprego, porém, seria expressivo: a montagem de um carro em CKD exigiria um contingente equivalente a apenas 10% dos 35 mil colaboradores da Stellantis na América do Sul.
Futuro das fábricas na Argentina
Na Argentina, onde mantém unidades em El Palomar e Córdoba, o grupo avalia o impacto da abertura de mercado promovida pelo governo de Javier Milei sobre a produção local. Zola cita a Peugeot como exemplo da mudança: sua participação no mercado argentino recuou de 9% para 5%, em um período de queda geral nas vendas.
Diante da demanda menor e dos custos de produção mais altos, o executivo admite três possibilidades: manter as duas fábricas, fechar uma ou encerrar ambas, conforme as regras do governo.
O que isso significa para o mercado brasileiro
A disputa entre marcas tradicionais e chinesas já aparece nas vendas. O BYD Dolphin Mini, na faixa de R$ 120 mil, foi o primeiro elétrico a alcançar o top três dos carros mais vendidos do Brasil, e é comparado ao recém-chegado Jeep Avenger a combustão. Com a Stellantis aberta a novas parcerias com marcas chinesas, o recado é que a pressão competitiva está redesenhando planos de produto, produção e investimento no país e na região.
