terça-feira, 27 de outubro de 2026

Stellantis fecha fábrica de Douvrin, berço do motor 1.2 PureTech com correia banhada em óleo, após 57 anos

A Stellantis vai encerrar as atividades da fábrica de motores de Douvrin, no norte da França, em 30 de outubro de 2026, depois de 57 anos de operação. A decisão foi anunciada em 20 de julho e fecha o ciclo de uma unidade que, nas últimas duas décadas, virou o endereço do 1.2 PureTech, motor que se tornou a maior crise de imagem do grupo na Europa.

Uma história que começou em 1969

A planta começou a operar em 1969, fruto de uma associação entre Peugeot e Renault. Nasceu para produzir o chamado motor X, que equipou Renault 14, Peugeot 104 e 205, Citroën Visa e C15 e o Talbot Samba Rallye.

Depois vieram o V6 PRV, usado em uma longa lista de modelos franceses de alto padrão e também no DeLorean de "De Volta para o Futuro", a família de quatro cilindros que levou o nome da cidade e os motores da PSA. Douvrin também montou os propulsores EP, o Prince, desenvolvido em parceria com a BMW e presente em Peugeot e Citroën, do EP6 Turbo do DS3 Racing à versão de 270 cv que equipou o Peugeot 308 GTI e o RCZ R.

O PureTech e a correia banhada em óleo

Em 2012 entrou em linha o três-cilindros EB, o 1.2 PureTech, projetado com correia de distribuição banhada em óleo. A solução prometia menos atrito e menor consumo, mas a correia se degradava em contato com o lubrificante, e os resíduos comprometiam a lubrificação do motor.

Os problemas de consumo de óleo e de confiabilidade decorreram do projeto e de padrões de uso, como o trânsito de paradas constantes, e não da operação da fábrica. A resposta veio em recalls, extensão de garantia na Europa e, a partir de 2023, uma geração com corrente de distribuição no lugar da correia.

Nos últimos meses, a unidade produzia apenas o EB2, o 1.2 já com corrente, aplicado em modelos a combustão e híbridos do grupo. Essa versão deixou de ser vendida nos países da Europa ocidental. O 1.5 BlueHDi, outro motor de reputação arranhada, havia saído de Douvrin no ano passado.

Por que a fábrica fecha

Dois fatores explicam o fechamento. O primeiro é que o sucessor do 1.2 PureTech, um novo 1.2 turbo com o qual a Stellantis pretende encerrar o assunto, será fabricado em Trémery, perto de Metz.

O segundo é a eletrificação do entorno. A região industrial passou a ser chamada de "vallée de la batterie", em analogia ao Vale do Silício, e ao lado de Douvrin funciona a gigafábrica da ACC, que fornece as baterias dos Peugeot e-3008 e e-5008. A expectativa é de que a planta seja reconvertida para a produção de células, embora a montadora não tenha confirmado o destino do imóvel.

  • 340 funcionários foram transferidos para a operação de baterias vizinha.
  • Outros 330 são recolocados por meio de planos de transição.
  • Pouco menos de 50 empregados permanentes e cerca de 50 em regime de tempo parcial seguem sem destino definido e precisariam de requalificação para acompanhar a nova cadeia produtiva.

O que muda para o mercado

O motor que carimbou a história recente de Douvrin, no entanto, não morre com a fábrica: a planta de Tychy, na Polônia, segue produzindo o 1.2 PureTech e deve mantê-lo em linha por mais alguns anos, destinado a mercados fora da Europa ocidental.

Para o consumidor brasileiro, o episódio é uma referência sobre como escolhas de projeto, como a correia banhada em óleo, podem pesar na reputação de um motor por anos, mesmo depois de correções como a adoção da corrente de distribuição. O fechamento de Douvrin simboliza a transição de uma fábrica de motores a combustão, com décadas de história, para a era da eletrificação.

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