A Honda NSX 1991 usada por Ayrton Senna foi vendida por 871.250 libras esterlinas, mais de R$ 6,3 milhões, em leilão da RM Sotheby's realizado em Londres, na Inglaterra, no sábado (31). A estimativa era que o esportivo fosse arrematado por pouco mais de R$ 5 milhões. É o carro que aparece na foto clássica do tricampeão de calça jeans e camisa social, lavando a carroceria vermelha com uma mangueira.
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O leilão e o resultado
O exemplar está muito bem conservado e mudou de dono no sábado (31). O vencedor topou pagar 871.250 libras esterlinas, valor que superou a estimativa inicial do leilão. O histórico documentado do carro ajuda a explicar o resultado.
Quem levou a NSX para casa também recebe o livro de garantia, os registros de propriedade em Portugal e uma cópia da comunicação da Honda que confirma a ligação do exemplar com Ayrton Senna.
Um carro sempre à disposição do piloto
No início dos anos 1990, a Honda tinha um acordo com Senna para deixar uma NSX sempre à disposição dele. Na Europa, eram três unidades: duas pretas e essa vermelha, na cor "Formula Red", com teto preto e interior todo em couro preto. O esquema era quase de hotel cinco estrelas.
O carro ficava guardado em Lisboa e era entregue ao brasileiro sempre que ele desembarcava em Portugal, onde tinha uma propriedade no complexo de Quinta do Lago. Foi assim durante a temporada europeia de 1991, ano em que Senna conquistou o terceiro título mundial na Fórmula 1.
Foi ao volante dessa NSX que ele foi ao circuito de Estoril para o Grande Prêmio de Portugal daquele ano. Na corrida, largou em terceiro e cruzou a linha de chegada em segundo. O mesmo exemplar ainda apareceu no documentário "Ayrton Senna: Racing Is In My Blood", lançado em 1992.
Senna ajudou a moldar a NSX
A proximidade entre Senna e a Honda vinha de antes. Em 1987, a marca japonesa passou a fornecer motores para a Lotus, equipe do brasileiro na época. Naquele ano, ele venceu duas corridas e fechou o campeonato em terceiro. Em 1988, foi para a McLaren, que também adotou motores Honda, e conquistou seu primeiro título mundial, batendo o companheiro de equipe Alain Prost.
Foi essa parceria que o colocou nos testes de desenvolvimento da NSX. Em fevereiro de 1989, Senna estava no Japão testando um McLaren de Fórmula 1 quando a Honda o convidou para dar algumas voltas no protótipo. O veredito foi que faltava rigidez ao modelo. O comentário pegou os engenheiros de surpresa, já que o projeto havia sido pensado para oferecer comportamento no nível das Ferrari e Porsche da época.
A Honda levou a crítica a sério. Aprimorou o projeto e fez mais testes na Alemanha, no circuito de Nürburgring. Depois de oito meses de trabalho, a estrutura ficou 50% mais rígida e a suspensão também foi melhorada.
Como nasceu a NSX
A NSX começou a ganhar forma em 1984, quando a Honda resolveu estudar algo diferente do que fazia na maior parte dos seus carros: motor central e tração traseira. Para testar o conceito, os engenheiros adaptaram um Honda City de primeira geração. Gostaram do resultado, principalmente nas curvas, mas a tecnologia disponível ainda não permitia levar aquilo à produção. Ficou a meta de criar um esportivo que chegasse perto da sensação de um Fórmula 1, mas fosse fácil e confortável no dia a dia.
O desenvolvimento começou de verdade em 1985, com uma equipe que incluía o engenheiro Shigeru Uehara. O desenho teve inspiração no caça F-16. A grande sacada foi a carroceria monobloco feita inteiramente de alumínio. Comparada à de um carro equivalente de aço, a estrutura ficou 140 kg mais leve, e o carro inteiro perdeu quase 200 kg. Isso exigiu novas técnicas de moldagem e soldagem do material e fez da NSX o primeiro carro de produção em série do mundo com esse tipo de carroceria.
O público viu o protótipo pela primeira vez no Salão do Automóvel de Chicago, em fevereiro de 1989, ainda como NS-X e com a marca Acura, divisão de luxo da Honda nos Estados Unidos. Para produzir o modelo, a Honda ergueu uma fábrica exclusiva em Tochigi, no Japão, inaugurada em 1990. A produção era limitada a 25 carros por dia, com montagem e acabamento feitos à mão. A versão final chegou ao mercado japonês em setembro de 1990, já como NSX. Alguns clientes chegaram a esperar três anos para receber o carro. Em 1991, a Honda chamou donos da NSX para ouvir suas impressões, e parte das sugestões foi parar na versão Type R, apresentada em 1992.
A trajetória do exemplar depois de Senna
Depois da morte do piloto, em Imola, em 1994, a NSX foi registrada em Lisboa em fevereiro de 1995 pela empresa Laboa Etablissement, segundo o órgão português responsável pelo cadastro de veículos. A ligação com Senna foi confirmada por um fax da Honda, depois ratificado pela Honda Motor Europe.
- Leilão: RM Sotheby's, em Londres, no sábado (31)
- Valor final: 871.250 libras esterlinas, mais de R$ 6,3 milhões
- Estimativa: pouco mais de R$ 5 milhões
- Setembro de 1997: carro aos cuidados da Nipomotor, concessionária da Honda
- Novembro de 2009: comprado pelo dono da MSCAR Comércio de Automóveis SA, de Faro, no Algarve
- 2013: comprado por Robert McFagan, que levou a NSX ao Reino Unido; liberação para rodar nas ruas britânicas em maio de 2016
- 2019: volta a Imola nas homenagens pelos 25 anos da morte de Senna, conduzida por Giancarlo Minardi
- 2024: comprada pelo atual proprietário, de Nagoya, no Japão
O carro voltou ao Reino Unido para o leilão, completando o caminho de volta.
O que isso significa para o entusiasta brasileiro
O resultado mostra o peso de um histórico bem documentado: o valor pago superou a estimativa com folga. Para o fã brasileiro de Senna e de esportivos clássicos, a venda reforça como a história de um carro ligado ao piloto, com registros, fax da Honda e participação em momentos marcantes, pode valer muito além do veículo em si.
