A Chery quer ampliar sua presença no Brasil com novas marcas, mais modelos híbridos flex e, no futuro, até uma picape produzida localmente. Foi o que afirmou Guibing Zhang, vice-presidente do grupo Chery Auto e presidente da Chery International, em entrevista ao Motor1 Brasil, durante o User Summit com a Omoda Jaecoo, em Wuhu, na China.
Zhang estava acompanhado de Fengshui Si, vice-presidente da Chery International e responsável pelas operações do grupo no Brasil. A estratégia passa por entender melhor as particularidades do mercado brasileiro, adaptar os produtos chineses às preferências locais e aproveitar a engenharia nacional para desenvolver soluções que também poderão ser exportadas.
Lepas e iCaur: marcas com papéis distintos
Segundo Zhang, a estratégia não se limita à Omoda Jaecoo. Há espaço para outras marcas do grupo, como a Lepas, que deverá trabalhar com volumes menores e atender a um público diferente. A ideia é ampliar a oferta de produtos e criar uma diferenciação clara entre as marcas, inclusive nos preços.
Pelos planos, a Lepas entra como uma marca eletrificada e com mais status que Omoda e Jaecoo, apostando em eletrificação e tecnologia embarcada, sem precisar alcançar os mesmos volumes comerciais previstos para a Omoda Jaecoo. Já a iCaur será o braço mais aventureiro e todo-terreno.
Sobre a rede de lojas, Si informou que a Omoda Jaecoo tem aproximadamente 110 concessionárias no Brasil, número que deve chegar a 150 até o fim de 2026. Para Lepas e iCaur, a expectativa é de redes menores, com cerca de 50 a 60 lojas para cada marca. Segundo o executivo, não faria sentido ampliar demais a rede sem garantir volume de vendas suficiente para que os concessionários tenham rentabilidade.
Zhang recorreu à moda para explicar a diversificação. Na avaliação dele, o consumidor mudou e já não quer necessariamente o mesmo carro que todo mundo tem. "Há 10 anos, marcas como Toyota ou VW vendiam mais de 1 milhão de unidades de um só modelo. Não havia tantas opções. Mas as pessoas estão mudando: não desejam o mesmo que todos já têm. Ninguém quer se vestir igual a todo mundo. Assim, podemos pensar nas marcas diferentes como roupas diferentes… Uma mesma plataforma e vesti-la de várias maneiras", comparou.
Fábrica no Brasil e sete híbridos flex
Para Zhang, a produção local é fundamental para o crescimento da Omoda Jaecoo no país. O executivo afirmou que a marca precisa de uma fábrica no Brasil e defendeu o apoio do governo brasileiro à produção nacional. Mais do que montar carros por aqui, a intenção é adaptar os produtos às particularidades do mercado.
O grupo estuda aproveitar o conhecimento acumulado pela engenharia automotiva brasileira, inclusive por meio de parcerias com universidades locais, para aperfeiçoar os produtos desenvolvidos na China. Acerto de suspensão, resposta da direção e comportamento em diferentes tipos de piso estão entre os aspectos que podem ser adaptados.
- O Omoda 4 já chegará ao mercado brasileiro com motorização híbrida flex.
- A previsão é que a Omoda Jaecoo tenha três modelos flex até agosto e mais quatro até o fim de 2027.
- O grupo pretende oferecer um total de sete híbridos flex no Brasil, entre modelos Omoda, Jaecoo e Lepas.
"É uma relação recíproca. No futuro, podemos importar essas melhorias brasileiras", afirmou Zhang, indicando que soluções desenvolvidas no Brasil também poderão ser aproveitadas em outros mercados.
QQ3 e picape dependem de produção nacional
A possibilidade de trazer o compacto QQ3 ao Brasil também está ligada à produção local. O modelo poderia chegar sob uma marca como a Omoda, mas a decisão dependerá da capacidade de fabricá-lo nacionalmente. "O mercado brasileiro é grande, a competição também. Dependemos da produção local para suportar o volume", disse Zhang.
Outro segmento de interesse é o de picapes. O grupo já produz uma picape média-grande, chamada de Stockman na Austrália e de Grootman na África do Sul. Com dimensões próximas às da Ford Ranger, o modelo chama a atenção pelo conjunto híbrido plug-in (PHEV) associado a um motor diesel. Há ainda a Zongheng F700, uma picape maior, também híbrida plug-in, mas com motor a gasolina, já registrada no Brasil, o que, por si só, não confirma sua comercialização no país.
Zhang admitiu o interesse em lançar uma picape no Brasil, usando a marca iCaur, mas o projeto só seria viável com produção local. Não há previsão de lançamento no curto prazo. Uma picape compacta não está entre as prioridades, pois o segmento enfrentaria concorrência acirrada, mas a possibilidade não está descartada. "Vamos testar a ideia. Quem sabe no Summit do ano que vem temos novidades?", encerrou.
Para o mercado brasileiro, o recado é de que a Chery pretende disputar volume com portfólio mais amplo, marcas diferenciadas e foco em híbridos flex, mas com a produção nacional como condição para os produtos de maior volume. Três temas ficaram fora da conversa: a localização da futura fábrica da Omoda Jaecoo, a influência das eleições brasileiras nos planos e a relação com o grupo CAOA, que produz modelos da Chery no país em operação independente das demais marcas do grupo chinês.
