domingo, 25 de outubro de 2026

Por que os argentinos ficam com os carros mais legais? Ford Everest, GR86 e outros modelos que não chegam ao Brasil

A Ford começou a vender a Everest na Argentina em 2025. O SUV de sete lugares é baseado na Ranger e segue a mesma receita da Toyota SW4 e da Chevrolet Trailblazer, derivadas da Hilux e da S10, respectivamente. As duas são vendidas no Brasil, mas a Everest não, apesar de o mercado brasileiro ser muito maior e de o país ser um dos principais compradores da Ranger. O caso reacende uma pergunta antiga: por que os argentinos têm acesso a carros que nunca chegam por aqui?

Uma diferença que não é de hoje

Os fabricantes há tempos oferecem uma gama mais abrangente no país vizinho. A Toyota vende o GR86 na Argentina, mas não no Brasil. O Fiat 600 híbrido também é oferecido aos argentinos, assim como aconteceu com o 500X, que chegou a ser apresentado no Salão do Automóvel de São Paulo, mas nunca foi vendido por aqui.

A história é antiga. Enquanto o Brasil ficou 40 anos com o Land Cruiser FJ, naturalizado como Bandeirante, os argentinos já tinham os Land Cruiser mais recentes e receberam ao menos três gerações do Celica. Também tiveram esportivos como o Renault Fuego Turbo, o Clio Williams, o Peugeot 205 GTI, o Mégane Coupé de primeira geração e o Peugeot 207 GTI.

Em alguns casos, os argentinos receberam versões diferentes de carros que o Brasil também vendia:

  • O Volkswagen Bora era vendido por lá com o motor 1.8 Turbo de 180 cv; o Brasil ficou apenas com o 2.0 aspirado.
  • O Chevrolet Astra GSi tinha um 2.4 16V de 150 cv na Argentina, contra o 2.0 16V de 136 cv do nosso.
  • O Focus de terceira geração era vendido lá com motor 2.0 Duratec e câmbio manual, combinação que a Ford não ofereceu no Brasil.

A diferença diminuiu, mas continua. A Toyota oferece na Argentina o GR86, o GR Yaris e o Land Cruiser 300. O Brasil tem o GR Corolla, que não é vendido lá, e só recentemente recebeu o GR Yaris.

Volume, renda e impostos não explicam tudo

Segundo a análise do FlatOut, o volume de vendas proporcional é parecido nos dois países: cerca de 12 veículos novos para cada 1.000 brasileiros e 13 para cada 1.000 argentinos em 2025. A renda per capita também não resolve, já que o Brasil tem população quase cinco vezes maior e, em números absolutos, mais milionários e uma classe média maior.

A Argentina também enfrenta o seu "custo Argentina", com crises cambiais, restrições às importações e inflação de três dígitos. Quanto à tributação, os dois países aplicam, como regra geral, a mesma tarifa de 35% aos carros importados de fora do Mercosul, com exceções. O "imposto do luxo" argentino foi reduzido em 2025 e eliminado em 2026, enquanto o Brasil mantém uma combinação de impostos federais e estaduais que encarece a importação. Mesmo assim, a Argentina já vendia o GT86 quando a tributação era ainda mais desfavorável aos importados.

Cultura automobilística e o peso do etanol

O autor aponta dois fatores determinantes: cultura e economia. Na cultura, a Argentina conta com diversos museus do automóvel, como o Museo Fangio, em Balcarce, e o do Automóvil Club Argentino (ACA), fundado em 1904. O ACA oferece assistência, seguros e turismo, ajudou a construir estradas e mantém com a YPF uma parceria iniciada em 1936. O país também tem a Turismo Carretera, campeonato nacional que existe desde 1937, o evento AutoClásica e empresas como Berta, Pur Sang e Crespi. Esta última construiu 22 monopostos funcionais para a série Senna, da Netflix.

Na economia, entra o combustível. A gasolina comum brasileira tem hoje 32% de etanol anidro, contra mistura obrigatória de 12% na Argentina, com possibilidade de até 15%. Isso exige adaptação e calibração dos motores, um processo caro e demorado. Os ensaios brasileiros de emissões usam gasolina de referência E22, enquanto a Argentina passou a reconhecer certificações ambientais estrangeiras.

Ainda assim, o combustível não explica tudo: o Brasil recebeu o GR Corolla, o GR Yaris, o Mustang, o Bronco Sport e a F-150, nenhum deles flex. No caso da Everest, a Ford importa o SUV da Tailândia para a Argentina, com motor 2.3 EcoBoost a gasolina, e a chegada ao Brasil está sendo estudada. A marca desenvolve uma versão flex desse motor para a Ranger Tremor.

O que isso significa para o mercado brasileiro

Para o consumidor brasileiro, a conclusão é que a decisão depende da conta de cada fabricante: quantos clientes pagariam por um modelo importado, a que preço e a que custo de frete, impostos, homologação, peças, treinamento da rede e garantia. Gostar de carros é uma coisa, pagar por eles é outra, e o Brasil tem entusiastas de sobra. Enquanto a conta não fechar, modelos como a Everest seguirão como um motivo de inveja de quem olha para o vizinho.

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