terça-feira, 20 de outubro de 2026

A incrível história do verdadeiro “Fantasma do Titanic”: o Rolls-Royce Silver Ghost que escapou do naufrágio

Um Rolls-Royce Silver Ghost 1910 de teto aberto, preservado todo original na Argentina, é apontado como o verdadeiro "fantasma do Titanic". A família Pereyra Iraola havia reservado passagens e espaço no porão de carga do transatlântico para o carro. Um imprevisto familiar os fez cancelar a viagem, e assim o automóvel escapou do naufrágio. Em 2026, ele foi eleito Best of Show no Autoclasica, em Buenos Aires.

O outro "Titanic Ghost", de Belfast

Quem acompanha o antigomobilismo de luxo pré-Guerra talvez conheça o "Titanic Ghost": um Rolls-Royce 40/50 Silver Ghost de 1910 que voltou a Belfast, na Irlanda do Norte, em 2012. Ele foi encomendado por Lord Pirrie, presidente do estaleiro Harland & Wolff, onde os planos do Titanic saíram do papel. Depois, passou a Alexander Montgomery Carlisle, projetista-chefe do navio.

Esse carro teve várias vidas, inclusive como ambulância e guincho, e foi restaurado após voltar aos Estados Unidos. Mas ele nunca esteve a bordo do navio. Sua ligação com o Titanic é corporativa e institucional, não a de um carro que chegou a ser ameaçado pelo naufrágio.

Um Rolls-Royce para poucos, e feito sob medida

Em 1910, ter um Rolls-Royce exigia mais do que dinheiro: era coisa de aristocratas, chefes de Estado ou magnatas da indústria. A fábrica de Derby entregava apenas o chassi rolante, com mecânica completa, rodas e radiador. Teto, portas, bancos, faróis e bagageiros ficavam a cargo de uma encarroçadora independente, escolhida pelo cliente.

O 40/50hp, lançado em 1906, ganhou o apelido "Silver Ghost" pela pintura prateada do protótipo e pelo silêncio e a falta de vibração em funcionamento. Nos modelos de 1910, o seis-cilindros em linha tinha 7,4 litros (7.428 cm³) e entregava torque suave em baixa rotação. Dizia-se que era possível equilibrar uma moeda sobre a tampa do radiador com o motor ligado.

A viagem que a família cancelou

A aristocrática família argentina Pereyra Iraola encomendou seu Silver Ghost em 1910. Eram pioneiros do agronegócio, com terras na província de Buenos Aires, e levavam uma vida cosmopolita. Em maio de 1910, Laura Pereyra Iraola, a "Tia Laura", liderou uma expedição à Europa que durou dois anos. Ela levou irmãos, a cunhada María Teresa Lamarca, seis sobrinhos pequenos e um sacerdote. O objetivo era dar uma formação cultural aos sobrinhos e fechar negócios.

Laura dispensou os encarroçadores britânicos, cujos desenhos considerava pequenos demais para a família e as bagagens. O conjunto foi para a J. Rothschild & Fils, de Paris, que montou uma carroceria town car, com o motorista num compartimento frontal semi-aberto e os passageiros numa cabine fechada. O acervo fotográfico da família registra o carro em Londres, Edimburgo, Bruxelas, Viena, nos Alpes Suíços, no Coliseu e na Praça de São Pedro.

Para voltar, a família reservou passagens de primeira classe no Titanic, a partir de Southampton. O Silver Ghost teria lugar no porão de carga, para desembarcar em Nova York e seguir de navio até Buenos Aires. Faltando poucos dias para o embarque de 10 de abril de 1912, María Teresa Lamarca estava grávida de oito meses do 11º filho. Diante de um histórico de gestações complexas, a travessia pareceu imprudente, e os bilhetes foram cancelados. Laura resumiu: "Fizemos uma bela viagem, e isso basta."

A criança nasceu pouco depois em Paris e recebeu o nome de Antonio, apelidado de "El Francesito". Cinco dias após o cancelamento, na madrugada de 15 de abril, o Titanic afundou depois de colidir com um iceberg. O único automóvel que estava no porão de carga, um Renault Type CB Coupe de Ville 1912 do passageiro William Carter, afundou com o navio e permanece destruído a quase quatro mil metros de profundidade.

Mais de um século na mesma família

A família e o Rolls-Royce só voltaram à Argentina em dezembro de 1912. O carro ganhou como garagem a residência familiar da rua Esmeralda, na Recoleta, e levou a família ao Teatro Colón e à Estancia Abril, em Berazategui. Há 116 anos o Silver Ghost permanece com a mesma família, com peças originais, o tecido original dos bancos e o motor de 7,4 litros. Até o tubo comunicador de latão, usado para falar com o chauffeur, funciona. Colecionadores americanos e a própria Rolls-Royce tentaram comprá-lo, e a resposta foi sempre "não".

O reconhecimento veio no Hipódromo de San Isidro, no Autoclasica de 2026, em sua primeira aparição pública em décadas. Entre cerca de 1.200 carros expostos, o Silver Ghost da família Pereyra Iraola foi escolhido Best of Show pelos jurados internacionais e também venceu a categoria "Veteranos".

Para o público brasileiro e sul-americano, a história lembra que um dos maiores símbolos do automóvel pré-Guerra está preservado em solo latino-americano. Os britânicos têm o "Titanic Ghost" de batismo, mas o carro que escapou do navio por um imprevisto familiar está na Argentina.

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