A Volkswagen escolheu a Xpeng para tentar salvar seu negócio na China e, três anos depois, o primeiro fruto da parceria mostra resultados abaixo do esperado. Segundo a agência Reuters, o SUV elétrico ID. UNYX 08 vendeu, em média, 267 unidades por mês entre abril e agosto, de acordo com a ThinkerCar, contra uma meta interna de 3.622 mensais em 2026. O caso resume a queda da marca no maior mercado de carros do mundo e traz um alerta que também interessa ao Brasil.
Por que o UNYX 08 não decolou
A primeira razão apontada pela Reuters é o próprio produto. O UNYX 08 chegou ao mercado por cerca de US$ 34 mil, enquanto rivais de preço parecido ofereciam mais recursos: o Xiaomi YU7 trazia um pacote avançado de sensores e o Zeekr 7X apostava em recarga rápida. Entre abril e agosto, o Xiaomi vendeu quase 57 mil unidades e o Zeekr mais de 21 mil, contra cerca de 1,3 mil do Volkswagen.
"Os clientes chineses perguntam: por que comprar um carro alemão caro se podem ter a tecnologia muito mais barata?", disse à Reuters Pedro Pacheco, da Gartner. Segundo a publicação, a Volkswagen mostrou a analistas, em 2024, desenhos de modelos feitos com a Xpeng, e o mercado chinês já exibia carros parecidos no Salão de Pequim do dia seguinte.
A distribuição agravou o quadro, segundo cinco fontes ouvidas pela Reuters:
- a montadora vendeu o SUV por meio de uma rede nova, operada pela Volkswagen Anhui, em vez de utilizar as mais de 3.000 concessionárias das parceiras FAW e SAIC;
- com apenas 166 pontos de venda, muitos clientes nem sabiam que o carro existia;
- a empresa disse à agência que as vendas da Anhui estão crescendo e que passou a utilizar lojas selecionadas da FAW-Volkswagen.
A Reuters também aponta uma cultura de metas otimistas, necessárias para aprovar modelos na sede em Wolfsburg. A projeção para 2026 foi cortada em mais de 60%, para 12,3 mil unidades, e o carro passou a ser anunciado com 17% de desconto.
Reestruturação e um mercado em queda
Segundo a Reuters, a China, que já respondeu por quase metade do lucro do grupo, hoje contribui com cerca de 10%, e a empresa mergulhou na maior reestruturação de seus 89 anos. A estratégia de parcerias chinesas era chamada internamente de "casamento e divórcio": aliar-se para aprender e sair depois. Conversas com a BYD e a Leapmotor não avançaram, embora a montadora negue ter negociado com a BYD, e outras alianças terminaram em litígios.
Em mensagem à equipe de 10 de setembro, obtida pela agência, Ralf Brandstätter descreve uma indústria diante de uma contração "excepcional". A Volkswagen espera retração de 20% no mercado chinês neste ano, margens setoriais de 1,5% e ciclos de produto reduzidos de sete para três anos. Ele pede o alinhamento da capacidade produtiva e o fim de "duplicações desnecessárias" entre marcas.
A participação do grupo caiu de um em cada cinco carros vendidos em 2019 para 10% nos oito primeiros meses deste ano, segundo a Associação Chinesa de Automóveis de Passeio. Para a Reuters, o caso ilustra o dilema de quase todas as montadoras estrangeiras: comprar tecnologia local não garante acompanhar a velocidade dos rivais chineses. O próximo teste é o sedã UNYX 09, que chega neste mês; os documentos vistos pela agência projetavam quase 4,9 mil vendas mensais.
O que o Brasil pode aprender com isso
A Volkswagen já registrou no Brasil o próprio UNYX 08 e planeja apresentar uma nova geração da Amarok baseada numa picape da chinesa SAIC, a Maxus Interstellar X. Essa movimentação já estaria causando mudanças na Argentina, com a redução do número de fornecedores locais na fábrica que produz a picape no país vizinho.
Ao anunciar a nova Amarok, a Volkswagen destacou a participação importante de seus times sul-americanos de engenharia, desenho, testes e calibração, especialmente na adaptação de suspensão, direção, eletrônica e comportamento dinâmico às condições locais. Isso, porém, não muda o fato de que a base do projeto é a Maxus Interstellar X, desenvolvida pela SAIC na China e já vendida por lá com diferentes opções de motorização.
A Volkswagen confirma apenas que a nova picape será híbrida, sem detalhar oficialmente o conjunto mecânico. O Motor1.com Brasil revelou em abril informações exclusivas sobre a versão de topo, que seria lançada como Amarok 800 TSI, em referência aos 800 Nm (81,6 kgfm) de torque combinado do sistema híbrido plug-in. O conjunto deverá superar 470 cv, contar com tração integral e acelerar de 0 a 100 km/h em menos de cinco segundos. A estratégia faz parte do reposicionamento do modelo, que deixará para trás o tradicional V6 turbodiesel.
Para o mercado brasileiro, a lição é direta: a experiência da Volkswagen na China mostra que a empresa não pode se apoiar apenas no peso da marca e em tecnologia de ponta se os preços da nova Amarok fugirem do praticado por rivais diretas ou se o pacote tecnológico ficar abaixo do esperado por aqui.
