segunda-feira, 26 de outubro de 2026

Lexus LS400: o sedã que inspirou fase do Street Fighter II e abalou a Mercedes-Benz

O Lexus LS400, primeiro modelo da divisão de luxo da Toyota, chegou ao mercado em 1989 e incomodou marcas como Mercedes-Benz, BMW, Jaguar e Cadillac. Para muitos brasileiros, ele é lembrado como o carro que precisa ser destruído em uma fase bônus de Street Fighter II. Por trás dessa memória, porém, existe uma história de engenharia que forçou os alemães a voltar às pranchetas.

Por que a Toyota criou a Lexus

Carros de luxo servem como vitrine de tecnologia para um fabricante e mostram do que ele é capaz. A Toyota já estava estabelecida como uma boa fabricante generalista, mas criou a Lexus para provar que podia ir além. Essa estratégia vem sendo copiada pelas marcas chinesas, que trazem ao Brasil modelos com preços acima de R$ 300 mil, não para vender em volume, mas para dar credibilidade aos carros de volume.

A Toyota já tinha um modelo de alto luxo exclusivo para o Japão, o Century, lançado em 1967 e focado em silêncio, suavidade e discrição. Para a Lexus, a marca manteve esses atributos, mas os combinou com alta tecnologia e desempenho. A referência do segmento sempre foi o Mercedes-Benz Classe S, escolha de chefes de Estado, diplomatas e celebridades.

Um projeto sem prazo nem orçamento

Em 1983, o presidente da Toyota, Eiji Toyoda, criou o projeto para desenvolver esse "Mercedes japonês". Não houve prazos nem orçamento definidos; as metas eram superar os europeus em aerodinâmica, silêncio a bordo, velocidade máxima e economia de combustível.

  • 60 designers, 1.400 engenheiros divididos em 24 equipes, 2.300 técnicos e mais de 200 funcionários de suporte;
  • 450 protótipos do carro e 900 do motor, que rodaram 2,7 milhões de quilômetros ao todo;
  • forma definitiva alcançada em 1987, seguida de testes de durabilidade e validação até o lançamento, no início de 1989;
  • meta de vender 50 mil unidades por ano, sendo 40 mil delas nos EUA.

O que o LS400 oferecia

O desenho era conservador, sem grade exagerada ou ornamentos no capô, mas os vãos precisos entre os painéis e o cuidado com a aerodinâmica apareciam a quem olhasse com atenção. O motor era um V8 4.0 inédito, o 1UZ-FE, com diâmetro dos cilindros maior que o curso dos pistões para funcionar de forma mais suave. Um comercial de lançamento mostrava o carro acelerando em um dinamômetro com taças empilhadas no capô, e elas não caíram.

O V8 entregava 260 cv e 36 kgfm. A aceleração de zero a 100 km/h levava 8,5 segundos e a velocidade máxima era de 250 km/h. O câmbio automático de 4 marchas trazia controle eletrônico, algo inovador para a época.

Na lista de luxos havia regulagem elétrica da coluna de direção e dos cintos de segurança, painel eletroluminescente com efeito holográfico, suspensão a ar, sistema de som Nakamichi e telefone celular integrado. No Japão, onde era vendido como Toyota Celsior, podia vir com GPS.

O impacto sobre a Mercedes-Benz

A Mercedes-Benz projetava um novo Classe S no mesmo período, com lançamento também previsto para 1989. A chegada do sedã japonês obrigou os alemães a voltar às pranchetas. O novo Classe S já havia sofrido atraso com o desenvolvimento de um motor V12 para responder ao BMW 750i.

Quando a Mercedes-Benz conseguiu comprar um LS400, seus engenheiros ficaram chocados com a precisão da montagem e o isolamento acústico. O projeto do Classe S foi adiado em 18 meses para melhorar esses pontos e finalizar o V12, o que gerou gastos adicionais de até US$ 1 bilhão.

Cada unidade vendida do primeiro LS400 dava prejuízo à Toyota, mas ela compensava com as vendas de Corolla, Camry, Hilux e outros modelos. A Mercedes-Benz também teve prejuízos com o Classe S, mas isso pesava mais em seu balanço. Nos anos 1990, a marca alemã buscou reduzir custos, e algumas decisões só aumentaram as perdas. Ela só começou a se reerguer do impacto causado pela Lexus na década seguinte.

Para o mercado brasileiro, a história ajuda a entender o movimento atual: marcas que já dominam o volume usam modelos de luxo como prova de credibilidade. O LS400 mostrou que um carro vendido com prejuízo pode valer como vitrine e sustentar a reputação de toda uma marca.

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