O governo federal finge empunhar a bandeira do meio ambiente para sucumbir diante da pressão dos produtores de biocombustíveis. No caso do etanol, subiu – ilegalmente – por uma medida “provisória” seu teor na gasolina para 32% desde o dia 1º de agosto. A Lei do Combustível do Futuro prevê até 35% de álcool, desde que realizados testes que comprovem a viabilidade técnica da mistura, que ainda nem se iniciaram e levarão pelo menos seis meses para cumprirem critérios mínimos de aprovação. O que levou o MPF-MG a entrar com uma ação pública contra o governo federal para evitar o E32, alegando o não cumprimento da lei.
Assim é fácil: na “canetada” tudo se resolve. E o brasileiro, que não aderiu ao etanol hidratado na bomba, terá de aceitá-lo “goela abaixo” misturado à gasolina. O governo não se preocupa com possíveis prejuízos do motorista, além do aumento do consumo, pois é imprevisível o dano provocado — a longo prazo — pelo E32.
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Pode provocar oxidação de componentes metálicos e mangueiras em carros não projetados para este teor de etanol. No caso do motociclista, não se trata de hipótese: as motos já deixaram de funcionar corretamente desde que a gasolina passou de E27 para E30 em 2025, conforme alerta (ignorado pelo governo) da associação de seus fabricantes, a Abraciclo.
Existem caminhos mais objetivos e inteligentes para se aumentar a produção (e o consumo) do etanol no Brasil, mas que exigiriam um planejamento dos órgãos competentes. Termo que, aliás, anda meio sumido do vocabulário governamental. Alguns deles:
1. Escolha do consumidor
Da nossa frota de carros flex (80% do total), apenas 30% são abastecidos com etanol. Um empurrão do governo inverteria este percentual e levaria 70% dos motoristas a passarem da gasolina para o álcool;
2. Carros 100% a etanol

As fábricas não teriam dificuldade em produzir motores que só aceitam etanol. Mas temem a preocupação do motorista de ficar novamente refém dos produtores de álcool, que já falharam no final da década de 80 e o deixaram sem combustível (Decreto de morte do “Pró-Álcool”). Quase impossível de se repetir hoje, pelo elevado volume produzido e até pela crescente participação do etanol de milho.
Algumas fábricas poderiam iniciar hoje a produção destes motores, com eficiência bem maior que os flex abastecidos com álcool. Seria mais um empurrãozinho para se substituir o combustível fóssil pelo derivado de vegetais.
3. Solução global
O álcool é considerado uma excelente solução para a descarbonização em todo o mundo. E poderia, portanto, ser transformado numa commodity, com exportação garantida para vários países onde a eletrificação viria (se vier) mais lentamente. Estados Unidos (a partir do milho) e Brasil (da cana e milho) são os dois maiores produtores de etanol do mundo, mas outros países também o produzem em menor escala. E muitos adotaram também a solução de acrescentá-lo à gasolina. Em teores obviamente muito menores que no Brasil.
Cúmplices
O resumo da ópera é que, diante do lobby do agro, o Ministério de Minas e Energia é cúmplice da Presidência da República ao autorizar um aumento ilegal do teor de etanol, e ignorar a elaboração de um projeto para incluir o álcool de forma mais robusta em nossa matriz energética, sem atropelar a lei nem o motorista.
