Em agosto de 1984, a Fiat lançou no Brasil o Uno, um compacto pensado de dentro para fora, com arquitetura construtiva e ergonomia capazes de fazer inveja aos concorrentes. Oito anos depois do 147, que havia revolucionado o segmento de carros pequenos, econômicos e populares, a marca voltou a inovar com um modelo de interior claro e alto, que transmitia sensação de espaço apesar das dimensões contidas.
Do 147 ao Uno: a herança mecânica
O Fiat 147, lançado em 1976, trouxe ao mercado brasileiro um carro de dimensões externas compactas e amplo espaço interno. Sua grande novidade mecânica era a disposição transversal do conjunto motor e câmbio, uma arquitetura inovadora para a época. Essa mesma mecânica foi herdada diretamente pelo Uno.
O conceito do novo carro havia sido lançado um ano antes na Europa e chegou praticamente intacto ao Brasil. Ainda assim, o Uno brasileiro foi adaptado às necessidades do nosso mercado. Entre as principais diferenças estavam a suspensão traseira, independente com feixe de molas transversal no modelo nacional, e a posição do estepe, alojado ao lado do motor aqui e no porta-malas na versão europeia. Para acomodar o estepe no compartimento dianteiro, o Uno nacional ganhou um capô que envolvia mais a dianteira e os para-lamas, enquanto o europeu tinha apenas uma simples tampa de acesso ao motor.
Motores, câmbios e versões
No lançamento, a versão S usava o motor 1.050 com carburador simples, que gerava 52 cv. A mais equipada, a CS, empregava o motor 1.300, também com carburador simples, e entregava 59 cv. Em outubro de 1984 chegou a esportiva SX, sigla para Super Experimental, com motor 1.300 a álcool e carburador de corpo duplo, que produzia 70 cv.
Naquela época não existiam carros flex, e o consumidor precisava escolher entre gasolina e álcool na hora da compra. Em geral, os mais conservadores optavam pela gasolina, e os mais ousados preferiam o melhor desempenho do combustível vegetal.
- Versão S: câmbio manual de quatro marchas.
- Versões CS e SX: câmbio manual de cinco velocidades.
- CS: quinta marcha que privilegiava a economia de combustível.
- SX: relações mais curtas, voltadas ao desempenho.
Com suspensão independente nas quatro rodas, o Uno tinha comportamento dinâmico agradável para quem gostava de dirigir, e os freios a disco dianteiros atendiam a quem preferia um ritmo mais acelerado. A direção de pinhão e cremalheira não tinha assistência hidráulica, mas os pneus estreitos deixavam as manobras relativamente leves.
Ergonomia e espaço: o grande diferencial
O ponto alto do Uno era a ergonomia. As maçanetas ficavam embutidas em uma discreta fresta lateral, sem saliências, e o enorme para-brisa tinha limpador único, capaz de varrer cerca de 75% da área do vidro, um avanço marcante para a época.
A posição do motorista era mais ereta, quase como numa cadeira, conceito que a indústria adotaria décadas depois nos SUVs. Isso facilitava o acesso ao veículo e melhorava a visibilidade, graças ao teto mais alto e à maior área envidraçada. Dois módulos satélites ao lado do volante reuniam praticamente todos os comandos de condução: lanternas, faróis, lavador e limpador de para-brisa, limpador traseiro, desembaçador e luz alta, tudo sem tirar as mãos do volante. Os demais carros nacionais obrigavam o motorista a esticar o braço até o painel.
Com o estepe deslocado para o compartimento do motor, o Uno nacional oferecia porta-malas de 290 litros, apesar de medir apenas 3,64 metros de comprimento. Com o banco traseiro rebatido, a capacidade chegava a 620 litros. No lançamento, havia apenas a configuração de duas portas; a de quatro portas só chegou ao mercado brasileiro em 1992, pouco depois da introdução do Uno Mille.
O que o Uno representa para o mercado brasileiro
O Uno foi um divisor de águas nas operações da Fiat e permaneceu em linha até o final de 2013. Até hoje tem grande procura no varejo de usados. Ao introduzir conceitos inovadores, ajudou a moldar parte da evolução da indústria automobilística nacional e é lembrado como um carro que marcou a sua época.
