Celebrando 50 anos como fabricante no Brasil, a Fiat coleciona boas histórias construídas por seus automóveis. Mas por mais que seja consagrada como uma fabricante de carros de passeio, a marca italiana já se aventurou a produzir caminhão por aqui. No entanto, essa trajetória não foi tão próspera quanto a dos seus carros.
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Como em toda boa história, o início dessa empreitada não foi nada fácil, principalmente por ter sido uma continuidade da antiga Fábrica Nacional de Motores, ou para os mais íntimos, a lendária “Fenemê”.
De forma resumida, a história da FNM teve início em 13 de junho de 1942, em plena Segunda Guerra Mundial, para a fabricação de motores de aviões em Duque de Caxias (RJ). Com o fim do conflito em 1945, a empresa passou a fabricar caminhões pesados, em 1949, tornando-se simultaneamente a primeira indústria automobilística do Brasil.

O primeiro grande marco da FNM no setor automotivo foi a parceria com a italiana Isotta Fraschini. Dessa colaboração surgiu o FNM D-7300, lançado em 1949. Baseado no Isotta Fraschini D.80, ele foi o primeiro caminhão produzido em série no país, equipado com um motor diesel de 7,3 litros de 100 cv e capacidade de carga de 8 toneladas.
Porém, para colocar mais drama nessa história, anos depois a Isotta Fraschini faliu. Com isso, a FNM estabeleceu uma aliança com a, então estatal italiana, Alfa Romeo, dando início à era dos icônicos caminhões “Fenemê”. O primeiro modelo dessa fase foi o FNM D-9500, lançado em 1952, com motor diesel de 130 cv e capacidade para 8,1 toneladas de carga (ou 14 toneladas quando atrelado a uma carreta). A partir de 1953, a FNM iniciou um programa de nacionalização de componentes, incluindo cabines, pneus e baterias, buscando atingir 45% de conteúdo local.
A trajetória da FNM como empresa estatal chegou ao fim em 1968, quando foi privatizada e adquirida pela Alfa Romeo. Em 1973, a Fiat assumiu o controle da Alfa Romeo e, consequentemente, da FNM.
O início da Fiat no segmento de caminhão
Quatro anos antes de aposentar a marca FNM, em 1973, a Fiat tinha planos sólidos para ampliar sua presença no Brasil. Enquanto construía sua unidade fabril em Betim (MG), a empresa adquiriu 43% da Alfa Romeo do Brasil (então controladora da FNM). O objetivo era claro: utilizar a fábrica de Duque de Caxias para produzir uma linha inédita de caminhões.
Três anos depois, em 1976, era apresentado o Fiat 130, um modelo médio equipado com motor de seis cilindros e cabine avançada (“cara chata”), representando um grande salto de modernidade frente aos antigos FNM dos anos 1960. No mesmo período, o pesado FNM 190 começou a incorporar a influência do grupo italiano.

Ainda em 1976, a Fiat assumiu o controle total da operação e extinguiu a marca FNM. Em 1977 surgia a Fiat Diesel Brasil S.A., momento em que a marca finalmente passou a carregar apenas o nome Fiat no portfólio de pesados.
Com a nova razão social, a montadora promoveu uma renovação na gama: os modelos 70 e 130 deram lugar aos novos Fiat 80, 120 e 140. Já o pesado 190 ganhou uma nova versão, batizada de 190H, que trouxe uma cabine monobloco mais confortável e atualizada. Além disso, a marca passou a oferecer chassis para ônibus urbanos e opções com terceiro eixo de fábrica, aumentando a capacidade de carga.
Começam os problemas com o caminhão Fiat
Não demorou para a Fiat enfrentar desafios logísticos e operacionais que muitas montadoras enfrentam até hoje ao operar em um país de dimensões continentais. Os gargalos eram evidentes:
- Rede de concessionárias reduzida
- Dificuldade no fornecimento e obtenção de peças
- Baixa confiança do mercado na durabilidade dos produtos
- Constantes conflitos trabalhistas na fábrica de Xerém (RJ)
Mesmo diante desses entraves, a Fiat seguiu atualizando sua linha. Em 1982, apresentou o Fiat 190 Turbo, equipado com motor turbinado de 306 cv, alinhando o modelo ao nível tecnológico dos concorrentes da época, como Mercedes-Benz, Scania e Volvo. Além da nova motorização, a Fiat apostou em itens de conforto inéditos para a categoria naquele período.

Contudo, a novidade não foi suficiente para reverter o cenário. Além da baixa aceitação dos caminhões Fiat no mercado, as sucessivas greves e embates no chão de fábrica geraram demissões e protestos. De forma inesperada, em junho de 1985, a Fiat interrompeu definitivamente a produção de caminhões. Parte do maquinário foi vendida a outras fabricantes, enquanto a fábrica de Xerém foi adquirida pela Ciferal.
No total, a Fiat Diesel operou no Brasil por apenas 9 anos (1976 a 1985). Apesar da vida curta, seus caminhões ainda são lembrados pelas estradas como modelos valentes e raros.
