Depois de uma década longe dos híbridos plenos, o Grupo Volkswagen está voltando a apostar nessa tecnologia. A novidade da vez é o Skoda Octavia, primeiro full hybrid da história da marca tcheca. O movimento também interessa ao Brasil, onde a própria Volkswagen já confirmou a produção de um futuro HEV flex.
Como funciona o HEV da Volkswagen
O Octavia recebe o mesmo sistema apresentado pela Volkswagen em meados de 2026 e já usado em versões do Golf e do T-Roc. O conjunto combina o 1.5 TSI evo2 a gasolina, uma bateria de íons de lítio de 1,6 kWh e dois motores elétricos instalados no módulo híbrido dianteiro:
- um motor de 110 kW (150 cv), que funciona principalmente como gerador e motor de partida;
- outro de 125 kW (170 cv), responsável pela tração das rodas dianteiras e pela recuperação de energia nas desacelerações.
Tudo é integrado a uma transmissão híbrida específica, a TQ250, de apenas uma marcha, e uma embreagem permite conectar ou desconectar mecanicamente o motor a gasolina das rodas. O sistema trabalha de três formas: em baixa velocidade, o carro pode rodar somente com o motor elétrico de tração; no modo híbrido em série, o 1.5 TSI fica desacoplado das rodas e move o segundo motor elétrico como gerador, alimentando o motor de tração e mantendo a carga da bateria; e, acima de aproximadamente 60 km/h, pode entrar o modo paralelo, em que o TSI é conectado às rodas dianteiras com auxílio do motor elétrico.
No Octavia haverá duas configurações, com 136 cv e 170 cv de potência combinada. A bateria trabalha automaticamente entre 40% e 90% de carga e não tem tomada para recarga externa. Segundo a Skoda, ela permite rodar até uns 2 km continuamente sem ligar o motor a gasolina.
Diferença para o Corolla Hybrid
A solução é bem diferente da usada no HEV mais conhecido pelos brasileiros, o Corolla Hybrid. No Toyota, o motor a combustão e os dois motores-geradores elétricos trabalham interligados por um conjunto de engrenagens planetárias, que também faz o papel da transmissão e varia continuamente a contribuição de cada fonte de energia — daí a denominação e-CVT, embora não exista ali o sistema de polias e correia de um CVT convencional.
No sistema da Volkswagen não há esse conjunto planetário: a ligação mecânica entre o motor a combustão e as rodas é feita por uma embreagem e uma relação fixa. Enquanto o Toyota combina continuamente os caminhos mecânico e elétrico, o sistema VW alterna entre modos de funcionamento mais definidos.
Por que a VW ficou tanto tempo sem HEV
Durante boa parte dos anos 2000 e o início da década seguinte, os motores diesel cumpriam na Europa parte da função dos híbridos em mercados como Japão e EUA, entregando baixo consumo e menores emissões de CO₂. Enquanto Toyota e Honda investiam pesado nos HEV, a Volkswagen apostava nos TDI. Depois do Dieselgate e do endurecimento das normas de emissões, o grupo preferiu os híbridos leves (MHEV) de 48 V, mais simples e baratos, e os plug-in (PHEV), vistos como uma ponte para o carro elétrico puro.
Não foi por falta de experiência. O Touareg Hybrid, lançado em 2010, combinava um V6 3.0 TSI a um motor elétrico e entregava 380 cv. Depois veio o Jetta Hybrid, com 1.4 TSI, bateria de 1,1 kWh e câmbio DSG de sete marchas, para 170 cv combinados. A Audi teve Q5, A6 e A8 Hybrid, e a Porsche ofereceu Cayenne S Hybrid e Panamera S Hybrid. Eram, porém, modelos caros, complexos e de baixo volume. O Jetta Hybrid e os últimos Audi HEV saíram de linha por volta de 2016.
O cenário mudou
Modelos full hybrid e mild hybrid somados responderam por 34,5% das vendas de carros novos na União Europeia em 2025 e chegaram a 37,3% no primeiro semestre de 2026. Ao mesmo tempo, regras europeias mais rígidas passaram a reduzir a vantagem dos PHEV nos cálculos oficiais de emissões. O HEV voltou a ocupar um espaço interessante: custa menos que um plug-in, dispensa bateria grande e recarga externa, mas reduz consumo e emissões mais que um híbrido leve.
Oficialmente, a Volkswagen apresenta o sistema como desenvolvimento próprio, mas a Schaeffler participa nos bastidores com a transmissão híbrida MultiMode, cuja produção em série começou em 2026. O mais correto é tratar o conjunto como um powertrain da Volkswagen com participação da Schaeffler na transmissão.
O que muda para o Brasil
A Volkswagen já confirmou que produzirá na fábrica Anchieta, em São Bernardo do Campo (SP), seu primeiro modelo sobre a nova plataforma MQB37 equipado com sistema HEV flex. A marca também anunciou que os novos veículos desenvolvidos e fabricados na América do Sul terão versões eletrificadas, dentro de uma estratégia que incluirá híbridos leves (MHEV), plenos (HEV) e plug-in (PHEV).
Para o mercado brasileiro, a retomada do full hybrid pela VW sinaliza que a disputa por híbridos autorrecarregáveis, hoje associada ao Corolla Hybrid, tende a ganhar um novo competidor com tecnologia flex.
