A aposta da Ford em abrir espaço para uma nova geração de elétricos está cobrando um preço elevado antes mesmo de os futuros modelos chegarem às lojas. A montadora encerrou a produção do Escape e de seu irmão mais caro, o Lincoln Corsair, e as concessionárias já sentem a falta de dois crossovers compactos que atraíam muitos compradores.
Por que Escape e Corsair saíram de linha
A capacidade da fábrica de Louisville foi liberada para um projeto completamente diferente: o Fathom, uma nova picape elétrica. Segundo a fonte, ela deverá custar cerca de US$ 30.000 (R$ 156.600) e usará a próxima plataforma elétrica da Ford.
O problema é o calendário. Ainda faltam meses para o lançamento, e nesse intervalo a marca ficou sem dois produtos que vendiam bem.
O tamanho do buraco nas vendas
Até o mesmo período do ano passado, a Ford havia vendido aproximadamente 114.000 unidades do Escape e outras 19.000 do Lincoln Corsair. Neste ano, os exemplares remanescentes que continuaram chegando às lojas somaram apenas 37.000 unidades combinadas dos dois modelos.
Grande parte desse volume foi registrada no primeiro e no segundo trimestres, quando ainda havia mais unidades nos estoques das concessionárias. A diferença já se aproxima de 100.000 veículos, mesmo antes do fim da espera pelo novo EV.
Quando a nova plataforma entrar em operação, Escape e Corsair provavelmente terão ficado fora da linha por pelo menos um ano inteiro. Nesse período, no ritmo que tinham no mercado americano, os dois crossovers poderiam ter acumulado aproximadamente 160.000 vendas combinadas.
Para onde foram os compradores?
Os números do terceiro trimestre sugerem que esses clientes não migraram de forma significativa para outros modelos da própria Ford.
- Bronco Sport: é o candidato mais óbvio, pois compartilha a base com o Escape, embora tenha proposta mais voltada ao fora de estrada. Suas vendas ficaram praticamente estáveis, com alta de apenas 2,9% no ano, cerca de 3.000 unidades adicionais.
- Explorer: cresce quase 18% neste ano, o que acrescenta aproximadamente 29.000 unidades ao resultado da marca. Mesmo que todos esses compradores viessem do Escape, algo improvável, ainda sobraria uma diferença grande.
- Mustang: teve expansão semelhante em números absolutos, também insuficiente para explicar o destino da antiga clientela.
- F-Series: registrou pequena retração no terceiro trimestre, depois de dificuldades de produção nos meses anteriores.
No caso da F-Series, uma das principais fornecedoras de alumínio da Ford retomou as operações depois de meses parada, devido a um problema ocorrido em outubro passado. Nesse período, a empresa teve dificuldade para obter material substituto a preços competitivos por causa das tarifas ligadas à atual disputa comercial dos Estados Unidos. A normalização da cadeia pode ajudar a explicar por que a linha caiu cerca de 2% no terceiro trimestre, contra uma redução de 11% no segundo. Ainda assim, as metas de produção de picapes da Ford para este ano ficaram bem mais difíceis de alcançar.
O que isso significa para o mercado
O caso mostra o tamanho da aposta da Ford em sua futura plataforma elétrica e o custo de retirar produtos consolidados cedo demais. O momento foi especialmente delicado porque o Escape deixou a linha justamente quando os híbridos ganhavam ainda mais força entre os consumidores americanos.
Para o mercado brasileiro, a lição é acompanhar de perto como montadoras globais conduzem a transição para os elétricos. Quando a troca de gerações deixa uma lacuna na gama, as vendas podem não ser absorvidas por outros modelos da mesma marca.
