sábado, 3 de outubro de 2026

Deixou a cidade para construir a própria casa de terra nas serras: usou 12 cristais de para-brisas de carros, barro e madeira, na Argentina

Em Los Hornillos, povoado do Valle de Traslasierra, na província de Córdoba, uma mulher de 38 anos construiu a própria casa com a técnica de bioconstrução chamada cob. As paredes são de terra e madeira, e as aberturas usam 12 cristais de para-brisas de carros, comprados em leilão e encaixados nos muros.

Da cidade natal ao barro das serras

Ela deixou a cidade natal, em Santa Fe, e passou por trechos da América Latina até escolher Los Hornillos. O objetivo era parar de alugar e construir com as próprias mãos. O projeto não nasceu de um manual de luxo nem de um canteiro industrial. Nasceu da decisão de trocar o concreto urbano por barro, madeira e materiais reaproveitados.

O cob mistura argila, areia, fibra vegetal e água até a massa ficar plástica o bastante para ser modelada sobre uma estrutura de madeira. As paredes ficam espessas, o que ajuda a amortecer a oscilação de temperatura entre o dia quente e a noite mais fria das serras. A madeira define vãos, apoios e a geometria geral, e a terra preenche e sela.

O trabalho foi manual. Não há indício de canteiro mecanizado de grande porte, e a mistura foi calibrada conforme a umidade do dia e a qualidade do solo disponível. A casa também acompanha o relevo, o que reduz movimento de terra e preserva a drenagem natural. Como o cob pede proteção contra a água, o método depende de beirais generosos e de bases elevadas do solo.

Os 12 para-brisas que viraram janelas

O detalhe que mais chama atenção são os 12 cristais de para-brisas. Eles chegaram como peça de leilão e foram incorporados aos muros para deixar a luz entrar sem recorrer a caixilhos industriais completos.

Para-brisas automotivos são laminados, com uma película intermediária que segura estilhaços. Essa característica também ajuda na segurança de uma abertura em parede de terra, desde que o encaixe seja firme, o apoio seja estável e a dilatação térmica seja considerada. Em muitos casos o vidro tem formato levemente abaulado. Isso exige escolher entre aceitar o desenho original ou recortar e acomodar o vidro com vedação cuidadosa.

O contraste entre a opacidade da terra e a transparência do vidro define a leitura da fachada. A luz entra filtrada, e os reflexos mudam ao longo do dia. A lógica vale para o resto da obra: reduzir a compra de insumos virgens, encurtar o transporte e aceitar a imperfeição estética do reaproveitamento. O relato menciona ainda madeira e outros materiais recuperados.

Manutenção e rotina fazem parte do projeto

A terra crua tem baixa energia embutida em comparação com o cimento Portland e o aço, mas não é solução universal. Exige mão de obra treinada, solo adequado, proteção contra umidade e manutenção periódica. A parede de cob pede inspeção após chuvas fortes e atenção à erosão na base. Os vidros pedem checagem de fixação e da película, e a madeira pede proteção contra cupins e umidade.

Viver em Los Hornillos depois de anos de cidade e de deslocamento pela América Latina implica outra rotina. Há menos serviços à porta, mais planejamento de compras, manutenção própria e contato diário com o clima da serra. A casa responde com massa térmica e com a possibilidade de reformas pontuais feitas pela própria moradora, desde que ela domine o ofício.

O que a história diz ao leitor brasileiro

No Brasil, o debate sobre terra crua, adobe, taipa de pilão, superadobe e técnicas mistas circula em universidades, coletivos e canteiros. A tradição de pau a pique e de adobe nunca desapareceu por completo no interior. O discurso contemporâneo se diferencia pela atualização técnica: compactação controlada, testes simples de solo, beirais dimensionados e impermeabilização de bases.

O reaproveitamento de vidro automotivo também tem paralelo por aqui, já que oficinas e garagens descartam para-brisas trincados ou fora de especificação. Com cuidado estrutural e vedação correta, o material pode ganhar uma segunda vida em uma edícula, um ateliê ou uma moradia experimental. Mais do que copiar o desenho da casa argentina, a lição para o mercado brasileiro é perguntar quais resíduos, solos e madeiras de reuso existem perto da obra e quem ensina a usá-los sem colocar a estrutura em risco.

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