No início dos anos 2000, a Ford acertou em cheio ao lançar o EcoSport, primeiro SUV compacto produzido no Brasil. Mas nem toda a linha teve o mesmo sucesso: a versão de entrada, o 1.0 Supercharger, foi esquecida por causa do desempenho baixo e de uma manutenção que exigia atenção, e saiu de linha de forma discreta em 2006.
O EcoSport e a aposta da Ford nos SUVs
Enquanto a maior parte das montadoras apostava nos monovolumes para atender às famílias brasileiras, a Ford lançou o EcoSport em 2003, desenvolvido de acordo com as necessidades do consumidor nacional. Em vez dos grandes utilitários importados que dominavam o imaginário de quem sonhava com um SUV, a marca criou um modelo menor, mais acessível e baseado na plataforma do Fiesta, o que permitiu acelerar seu desenvolvimento e produção.
A proposta era diferente da dos rivais da época, como Mercedes-Benz Classe A, Renault Scénic, Citroën Xsara Picasso e Chevrolet Meriva. O EcoSport oferecia visual aventureiro, posição de dirigir elevada e uma imagem muito mais próxima dos utilitários esportivos que faziam sucesso no exterior. O resultado foi imediato: o modelo conquistou rapidamente o mercado e passou a vender em volumes muito superiores aos dos monovolumes concorrentes.
A estratégia por trás do 1.0 Supercharger
O EcoSport foi lançado com três opções de motorização:
- 1.0 Supercharger Zetec Rocam, de 95 cv;
- 1.6 Zetec Rocam, de 98 cv;
- 2.0 Duratec, de até 143 cv.
A lógica da Ford com a versão 1.0 era clara. Na época, veículos com motores de até um litro se beneficiavam de alíquotas reduzidas de IPI e ICMS, o que permitia preços mais competitivos. Os executivos da marca acreditavam que um SUV compacto com preço próximo ao de um carro popular teria enorme aceitação, e a expectativa era de vendas elevadas, aproveitando o sucesso do segmento e os incentivos fiscais.
Por que o 1.0 não vingou
O problema é que quem queria um utilitário esportivo não queria um motor 1.0 sob o capô. Na época, essa cilindrada estava fortemente associada aos carros de entrada, comprados por quem buscava economia e baixo custo de aquisição. Mesmo com compressor mecânico para aumentar potência e torque, o pequeno Zetec Rocam não conseguiu mudar essa percepção.
A diferença de preço entre as versões também não era grande. No lançamento, o 1.0 Supercharger custava cerca de R$ 31 mil, enquanto o 1.6 era vendido por aproximadamente R$ 35 mil. Pelo valor adicional, o consumidor levava um carro com desempenho superior, respostas mais rápidas ao acelerador e até consumo mais equilibrado em determinadas situações de uso. A escolha do mercado foi praticamente automática: a tradição e a confiabilidade do motor 1.6.
Para complicar, o sistema Supercharger exigia cuidados específicos. O compressor mecânico utilizava lubrificação própria, e muitos proprietários e oficinas desconheciam as recomendações corretas de manutenção. Com o tempo, não foram raros os casos de desgaste prematuro do conjunto, aumento excessivo de ruídos, perda de desempenho e crescimento significativo do consumo de combustível.
As vendas do 1.0 foram muito baixas e o modelo nunca conquistou a confiança dos consumidores. Após apenas três anos no mercado, a Ford encerrou sua produção em 2006, sem deixar sucessores. Para o mercado brasileiro, o episódio mostra que incentivos fiscais e preço baixo não bastam quando o produto não combina com o que o comprador espera dele: o EcoSport virou um enorme sucesso comercial, mas a configuração 1.0 Supercharger ficou como uma experiência que não encontrou sintonia com o consumidor da época.
