O governo francês passou a se opor à validação do Full Self-Driving Supervised (FSD), sistema avançado de assistência à direção da Tesla, em todo o território da União Europeia. A posição, defendida pelo ministro dos Transportes, Philippe Tabarot, cria um novo obstáculo institucional para a expansão da tecnologia no continente e surge depois de cinco países do bloco já terem liberado o recurso.
Quem já liberou e quem resiste
Países Baixos, Bélgica, Dinamarca, Estônia e Lituânia autorizaram o FSD Supervised em seus territórios. Os holandeses foram os primeiros: a homologação saiu após mais de 18 meses de testes em pista fechada e em vias públicas, por um caminho previsto na legislação europeia para tecnologias inovadoras.
Paris, no entanto, argumenta que o sistema comercializado pela montadora norte-americana ainda apresenta riscos para a segurança viária. Em declaração gravada em vídeo, Tabarot afirmou que a tecnologia não deve ser aprovada nos moldes atuais:
- "Na França, acreditamos que, embora este sistema traga uma série de avanços tecnológicos, as compensações em termos de segurança ainda não são suficientes para justificar a autorização na sua forma atual", disse o ministro.
A França não está sozinha. A Administração Sueca dos Transportes (TRV) já havia se manifestado contra o sistema, apontando falhas operacionais específicas, entre elas a possibilidade de o motorista configurar velocidades acima dos limites legais estipulados para cada via. Finlândia e Noruega expressaram reservas semelhantes, ainda que sem assumir postura tão categórica. A Noruega não integra a União Europeia e não tem direito a voto na decisão.
O que é o FSD Supervised e como funciona
Apesar da nomenclatura comercial ambiciosa, o FSD Supervised opera no Nível 2 de automação, distante do Nível 5, que corresponde à direção totalmente autônoma. O motorista permanece integralmente responsável pela operação do veículo, é obrigado a supervisionar o trânsito e deve retomar o comando manual de forma imediata a qualquer momento.
Na prática, o sistema recorre às câmeras externas do carro e à inteligência artificial para controlar direção, frenagem e aceleração. Ele é capaz de circular em ambiente urbano, lidar com cruzamentos e executar mudanças de faixa, enquanto uma câmera interna monitora continuamente a atenção de quem está atrás do volante. Nos países em que já foi liberado, o recurso é oferecido por assinatura.
Votação europeia e o que está em jogo
Para que a tecnologia obtenha aprovação definitiva em todo o bloco, é indispensável o voto favorável de pelo menos 15 dos 27 Estados-membros, grupo que precisa representar no mínimo 65% da população da União Europeia.
O desfecho da disputa tem efeito retroativo, e é isso que eleva a aposta para a Tesla: caso o FSD Supervised seja rejeitado em âmbito comunitário, as autorizações nacionais já concedidas pelos cinco países pioneiros serão revogadas.
Diante do impasse, Elon Musk, diretor-executivo da Tesla, recorreu à rede social X para criticar a posição de Paris. "Atrasar a aprovação do FSD na França vai custar vidas", escreveu no dia 22 de julho.
O que isso significa para o mercado brasileiro
A discussão europeia mostra como os reguladores estão tratando sistemas de assistência à direção que prometem cada vez mais autonomia, mas que ainda exigem atenção total do motorista. Para o consumidor brasileiro, o caso serve de referência sobre o debate em torno de segurança, responsabilidade do condutor e limites dessas tecnologias, que devem seguir ganhando espaço nos carros vendidos no país.
