Os conglomerados que reúnem várias marcas sob o mesmo guarda-chuva estão criando carros com traços inesperados. O novo Jeep Avenger, por exemplo, traz o estilo fora de estrada do fabricante norte-americano, mas por baixo usa a plataforma francesa de um Peugeot 208, um motor italiano da Fiat e câmbio CVT da japonesa Aisin. O intercâmbio entre fabricantes, porém, não é novidade: existe desde os primórdios da indústria automotiva. Relembre cinco casos de carros que nasceram com uma marca e foram vendidos com outra.
Corcel e Titano: a herança francesa e a picape de duas marcas
A marca do oval azul leva os créditos pelo Corcel e seus derivados, mas os méritos são franceses. A história começou com a Willys-Overland do Brasil, que vendia modelos da matriz norte-americana e da Renault. Dauphine, Gordini e Interlagos eram projetos franceses e não engrenaram no mercado nacional. A empresa trabalhava em um novo compacto sobre a plataforma do Renault 12, chamado de Projeto M, com desenho feito localmente, assim como no sedã Aero e no utilitário Rural.
Em paralelo, a Ford comprava a operação brasileira da Willys. O Projeto M foi lançado em 1968 como Ford Corcel, e as primeiras unidades chegaram a sair com o logo da Willys nos vidros. A fusão foi oportuna: deu à Ford um compacto moderno e o Jeep, já que até então a marca vendia apenas caminhonetes, caminhões e o luxuoso Galaxie. O motor Cléon, de origem Renault, era econômico e robusto. O Corcel também foi o primeiro carro de tração dianteira produzido no Brasil e o primeiro a passar por um recall.
Já a Fiat sempre quis vender uma picape média no Brasil. Ela criou o segmento das compactas por aqui e o lidera há décadas graças à Strada, e criou o das intermediárias com a Toro. Faltava algo maior e com chassi. A compra da Chrysler pela Fiat, em 2014, veio tarde: os norte-americanos tinham só modelos grandes e não havia interesse em uma média. A solução surgiu com a união entre Fiat e PSA na Stellantis.
A Peugeot projetou uma picape média em parceria com a Changan e se preparava para lançá-la no Brasil como Landtrek. Com a Stellantis formada, a Fiat brasileira interveio, pois o modelo faria mais sucesso na rede da marca italiana. Com troca de grade e de emblemas, a Fiat Titano chegou ao mercado no início de 2024, com motor 2.2 turbodiesel da Peugeot de 180 cv, como era vendida no Uruguai. A versão era provisória: a engenharia da Fiat em Betim (MG) já trabalhava para adotar o 2.2 Multijet de 200 cv, o câmbio ZF de 8 marchas da Ram 1500 e uma suspensão mais confortável. Essa segunda fase, de 2025, tinha mais DNA Fiat.
Dodge Polara e Volkswagen 1500: um britânico que virou argentino
O Dodge Polara brasileiro era uma das variações do britânico Hillman Avenger, compacto criado pela Chrysler europeia que ganhou o mundo, sempre com pequenas mudanças locais. Na Argentina, era vendido como Dodge 1500, com carrocerias sedã e perua, sempre de quatro portas.
A Chrysler argentina foi comprada pela Volkswagen em 1980, assim como no Brasil. O Dodge 1500 seguiu no mercado como Volkswagen 1500, mas manteve o emblema da Chrysler até 1987. Depois disso, a grade passou a ter as letras VW, o que fez dele o único carro de passeio da história da marca com motor dianteiro e tração traseira. Trazia componentes familiares, como as rodas do Voyage e a tipografia dos emblemas, e saiu de linha em 1990 para dar lugar ao Gacel, nome que o Voyage recebeu por lá.
Saab 9-2X e Seat Exeo: engenharia de um, rótulo de outro
Subaru e Saab têm origens semelhantes: ambas produziam aviões, migraram para os carros após a Segunda Guerra Mundial e prezam a engenharia de qualidade e as soluções próprias. Seus caminhos se cruzaram por causa da General Motors, dona da Saab e com 20% das ações da Subaru. Estudos do mercado norte-americano indicavam que um modelo de entrada seria bom para a marca sueca por lá.
Assim nasceu o Saab 9-2X, a partir da perua do Subaru Impreza, com mudanças para parecer sueco: mais isolamento acústico, bancos dianteiros com apoios de cabeça ativos, braços de suspensão traseira de alumínio e redução da massa não suspensa. O 9-2X Aero, esportivo com motor turbo do Impreza WRX, adotou a direção mais direta do STI e podia vir com teto solar, bancos aquecidos em couro, faróis de xênon e CD-player com disqueteira. Mesmo assim, os fãs da Saab torceram o nariz e o modelo durou só dois anos.
A Seat passou a integrar o grupo Volkswagen em 1986, como opção de entrada com pegada esportiva, usando plataformas da matriz com desenhos próprios. Para entrar nos sedãs executivos, em vez de um irmão do Passat, adotou o Audi A4 e fez o Exeo. A terceira geração do A4 saiu de linha em 2008, e seu ferramental foi transferido da Alemanha para a fábrica da Seat na Espanha, dando uma segunda vida ao sedã alemão.
A versão espanhola tinha dianteira e traseira diferentes e adotou o painel da versão conversível, com três saídas de ventilação circulares no centro. A carroceria perua também foi repatriada pela Seat. O Exeo foi vendido com motores 1.6 aspirado, 1.8 20V turbo e 2.0 turbodiesel; a partir da linha 2010, o turbo deu lugar ao 1.8 TSI e ao 2.0 TSI. Diferentemente do A4, nunca teve tração integral, apenas dianteira. Saiu de linha em 2014 sem deixar sucessor.
Para o mercado brasileiro, o histórico mostra que compartilhar projetos entre marcas é prática antiga e, muitas vezes, estratégica: o Corcel deu à Ford um compacto pronto, e a Titano mostra como a Stellantis usa essa lógica para ocupar um segmento que a Fiat buscava havia tempo. Com carros como o Avenger, a tendência segue viva.
