quinta-feira, 22 de outubro de 2026

Dan Gurney para presidente: a campanha fictícia da Car and Driver em 1964

Em 1964, os Estados Unidos viviam uma eleição presidencial importante, com o democrata Lyndon B. Johnson, que assumiu após o assassinato de John F. Kennedy em novembro de 1963, de um lado e o republicano Barry Goldwater do outro. Quem gostava de carros, porém, ganhou um terceiro nome: o piloto Daniel Sexton Gurney, lançado candidato pela revista Car and Driver. Era uma brincadeira, mas com uma mensagem séria: a imprensa automotiva precisava ser menos sisuda e lembrar que carros também são cultura, estilo de vida e prazer em dirigir.

Uma revista que queria provocar

A campanha nasceu da linha editorial que a Car and Driver adotava sob o editor-chefe David E. Davis Jr. Ele queria romper com a tradição monótona do jornalismo automotivo da época, e a revista deveria ter opinião, humor e capacidade de provocar. Em maio de 1964, surgiu o manifesto editorial "Dan Gurney for President!".

O texto dizia que a redação estava cansada de ver a sucessão de oportunistas, charlatães e amadores bem-intencionados disputando a Casa Branca. A solução era criar um candidato próprio para defender uma minoria esquecida pelos grandes partidos: os apaixonados por automóveis. A plataforma, escrita por Davis Jr., era deliberadamente absurda. Propunha, por exemplo, que todos os motoristas passassem por uma escola de pilotagem como a de Carroll Shelby em Riverside, e que os reprovados fossem obrigados a usar o transporte público. Tudo em tom de sátira.

Por que Dan Gurney?

A escolha foi estratégica. Gurney era carismático, tinha boa aparência e já havia vencido um Grande Prêmio de Fórmula 1 pela Porsche. Naquele momento competia pela Brabham e tinha uma reputação impressionante para um americano, respeitado tanto na Europa quanto nos Estados Unidos.

O automobilismo americano da época era um conjunto de comunidades relativamente separadas: o público de Indianápolis, o dos stock cars, os entusiastas de esportivos europeus e os seguidores da Fórmula 1. Gurney transitava entre todos esses mundos. A Sports Illustrated chegou a descrevê-lo como "a prova viva de que nem todo jovem apaixonado por hot rods acabava mal".

Kit de campanha, adesivos e apoio dos pilotos

A Car and Driver manteve a candidatura como campanha editorial permanente durante o verão e o outono de 1964, espalhando a identidade visual do "candidato" por suas edições. Criou também um kit oficial, que o leitor podia encomendar por US$ 1. O design imitava a estética eleitoral americana, com azul, vermelho e branco, estrelas e a frase "Car and Driver Candidate". A Ziff-Davis imprimiu adesivos de para-choque com cerca de 38 centímetros de largura, e um deles está preservado no museu The Henry Ford. Davis deixou claro que a revista não financiava partido algum: Gurney não ganharia nada, e a cobrança cobria só os custos de impressão e postagem.

A ideia chegou aos boxes. Jim Clark, bicampeão mundial de Fórmula 1, foi fotografado nas 500 Milhas de Indianápolis com o broche da campanha e brincou que, se Dan fosse eleito, não teria tempo de voltar à Europa para correr contra ele. Carroll Shelby e a equipe da Shelby American posaram com cartazes de apoio, e Bob Bondurant também exibiu o material. Os adesivos apareceram em carros de rua e de competição nos Estados Unidos e na Europa. Gurney abraçou a brincadeira e, anos depois, confirmou que a ideia foi de Davis Jr., admitindo surpresa com o quanto as pessoas aderiram.

Em setembro de 1964, a revista criou até uma oposição interna: o jornalista Steve Smith publicou uma sátira apresentando A. J. Foyt, recém-vencedor das 500 Milhas de Indianápolis daquele ano, como "A Escolha dos Revolucionários". Foyt não abraçou a campanha com o mesmo entusiasmo, mas não se opôs. Em junho de 1967, os dois dividiram o Ford Mk IV nº 1 e venceram as 24 Horas de Le Mans.

O fim da campanha

O encerramento veio em novembro de 1964, com um editorial de desistência. O motivo alegado era a Constituição americana, que exige idade mínima de 35 anos para o presidente. Gurney, nascido em 13 de abril de 1931, tinha 33 anos na eleição e não completaria 35 a tempo da posse, em janeiro de 1965. A redação sempre soube disso, e o impedimento serviu para fechar a piada na hora certa. O slogan seguiu reaparecendo em adesivos a cada ciclo eleitoral e ganhou homenagem no Goodwood Revival, em 2012.

Para o público brasileiro apaixonado por carros, a história é um lembrete de que o automóvel vai além de ficha técnica e comparativo. O episódio mostra o valor do humor, da personalidade e do prazer de dirigir, ideia que a FlatOut, fonte original do texto, defende ao sugerir que o mercado não deve ficar sem espaço para carros que despertam emoção.

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