A Porsche está recalculando a rota da eletrificação. Em entrevista ao Financial Times, o novo CEO, Michael Leiters, confirmou que o Macan voltará a ter uma versão a gasolina em 2028, convivendo com o atual modelo elétrico. A decisão faz parte de uma estratégia multi-energia, que pretende oferecer diferentes tipos de motorização conforme a procura de cada mercado.
Macan a gasolina volta em 2028
A mudança representa uma correção importante em relação aos planos anteriores da marca, que havia transformado a atual geração do Macan em um SUV exclusivamente elétrico e projetava uma transição bem mais rápida para modelos a bateria. A ideia agora é manter as duas alternativas simultaneamente, permitindo que o cliente escolha entre gasolina e bateria sem obrigar toda a gama a seguir uma única direção.
Leiters rejeita a interpretação de que seria um cético em relação aos elétricos. "Acho que isso é injusto", afirmou. Para ele, a estratégia é mais uma recuperação da oferta a combustão do que uma retirada dos investimentos feitos em carros a bateria, depois de a fabricante perceber que parte dos clientes ainda não está pronta para deixar os motores a combustão.
O executivo reconhece, porém, que é preciso cuidado para que a flexibilidade não vire gasto em dobro. "Precisamos ter cuidado para garantir que a empresa não faça um investimento duplo em modelos a gasolina e elétricos no mesmo segmento", explicou. Mesmo assim, mostrou otimismo: "Precisamos recuperar nossa estratégia a gasolina, mas estou muito otimista de que, quando tivermos o Macan com motor a combustão, teremos uma oferta muito equilibrada para nossos clientes entre carros elétricos e a gasolina".
Por que a Porsche mudou o rumo
A correção acontece depois de dificuldades em mercados nos quais a marca esperava crescer mais rápido. De acordo com os dados citados pela reportagem, as vendas do Macan elétrico recuaram 40% no primeiro semestre em relação ao mesmo período anterior, enquanto as entregas da Porsche na China caíram 32%.
A revisão também chegou à estrutura da empresa:
- acordo para eliminar cerca de 9 mil postos de trabalho até 2035;
- encerramento de negócios ligados a bicicletas elétricas, baterias e software;
- venda das participações na Bugatti Rimac e no Rimac Group, que rendeu aproximadamente € 1 bilhão, cerca de R$ 5,9 bilhões na conversão atual.
Leiters afirmou ao Financial Times que, "com um ambiente difícil, precisamos repensar nosso modelo de negócios e a escala da nossa organização". Para ele, o conjunto de decisões não é uma rejeição aos elétricos, mas uma tentativa de evitar gastos acima do necessário numa transição que avançou mais devagar do que o previsto. O CEO também defende que a disputa entre tecnologias aconteça em condições equilibradas: "Se tivermos condições iguais para competir, não precisaremos temer nenhum concorrente".
718 elétrico segue, 911 continua fora
A Porsche não abandonou os projetos elétricos que considera adequados a certos segmentos. A próxima geração da família 718, sucessora de Cayman e Boxster, continua sendo desenvolvida como esportivo movido a bateria. Na visão de Leiters, um segmento pode migrar para os elétricos enquanto outro segue dependendo da combustão, conforme o que os compradores realmente procuram. Para reduzir custos, a marca também deverá recorrer com mais frequência às tecnologias do Grupo Volkswagen, evitando arcar sozinha com o investimento em novas plataformas e componentes elétricos.
Já o 911 é uma exceção: o CEO voltou a confirmar que o modelo não ganhará versão totalmente elétrica. Isso não o afasta da eletrificação, já que o Carrera GTS utiliza um sistema híbrido que combina o motor a combustão com assistência elétrica. A Porsche também vem descartando uma configuração híbrida plug-in, argumentando que o conjunto exigiria bateria e componentes maiores, aumentando dimensões e peso num esportivo em que esses fatores pesam especialmente.
O que muda para o mercado brasileiro
O movimento mostra que uma das marcas mais associadas ao desempenho passou a tratar elétricos e combustão como alternativas complementares, e não como lados opostos. Para o consumidor brasileiro, o sinal é de que a Porsche pretende oferecer mais de uma motorização por segmento, com o Macan a gasolina previsto para 2028 ao lado da versão elétrica.
