O aumento dos acidentes com motocicletas no Rio de Janeiro (RJ) deixou de ser um problema restrito às emergências e já atinge quem sequer chegou perto de uma moto: pacientes com cirurgias marcadas estão tendo os procedimentos adiados para liberar equipes médicas, leitos e centros cirúrgicos. “Aumenta o número de emergências, tenho que reduzir as eletivas, deixando o paciente internado por mais tempo”, resumiu o secretário municipal de Saúde do Rio, Rodrigo Prado.
O efeito é mensurável: só em 2024, o Instituto Nacional de Traumatologia e Ortopedia (Into), referência nacional do SUS no Rio, deixou de realizar 1.450 cirurgias eletivas de alta complexidade por causa de transferências de emergência — um em cada cinco pacientes recebidos tinha lesões graves provocadas por acidentes de moto. Segundo o instituto, cada operação de urgência desse porte empurra para trás ao menos cinco pacientes da fila programada.
Entre janeiro e junho, o Corpo de Bombeiros atendeu mais de 25 mil vítimas de acidentes com motos no estado, média de 144 por dia, ou uma ocorrência a cada dez minutos. Segundo a Secretaria Estadual de Saúde, o Rio registrou mais de 600 mortes de motociclistas em 2025 — alta de 29% sobre o ano anterior.
Hospitais lotados dentro e fora do Rio

No Hospital Estadual Alberto Torres, em São Gonçalo (RJ), cerca de 70% das aproximadamente 500 cirurgias ortopédicas feitas por mês decorrem de acidentes de moto, segundo o coordenador de ortopedia da unidade, Carlos Neves. A maioria das vítimas são homens de 20 a 29 anos, que costumam precisar de meses de recuperação. No Hospital Municipal Lourenço Jorge, cerca de 80% das cirurgias por acidentes de trânsito envolvem motociclistas.
O quadro se repete pelo país: em São Paulo, a Sociedade Brasileira de Ortopedia e Traumatologia estima que 40% dos leitos de ortopedia da cidade estejam ocupados por vítimas de moto. Na Bahia, as internações por esses acidentes custaram cerca de R$ 148,6 milhões ao sistema estadual em 2025. No Amazonas, a Secretaria de Saúde aponta que 70% das cirurgias ortopédicas de uma de suas unidades têm a mesma origem.
Frota maior, entrega mais rápida

Para o Ipea, o avanço acompanha a explosão da frota, que foi de 2,7 milhões de motos em 1998 para mais de 34 milhões em 2024 — de menos de 10% para cerca de 30% dos veículos do país. Hoje, as motos respondem por quase 40% das mortes no trânsito brasileiro e por cerca de 60% das internações por acidentes de transporte.
O instituto, entretanto, também associa o crescimento dos sinistros à disseminação do mototáxi e dos aplicativos de transporte e entrega, que estimulam a pressa dos condutores em troca de remuneração um pouco maior. O tenente-coronel Fábio Contreiras, do Corpo de Bombeiros, aponta na mesma direção: a vulnerabilidade do motociclista somada à pressão por cumprir prazos, sobretudo entre entregadores.
Excesso de velocidade, avanço de sinal e distração com celular aparecem entre os principais fatores de risco. “A gente não enxuga mais gelo. A gente enxuga sangue”, disse Marcelo Pessoa, coordenador do Centro de Trauma do Alberto Torres, ao defender mais educação no trânsito e fiscalização.
