A startup Revoy, de São Francisco, desenvolveu um dolly elétrico autopropulsionado que se acopla entre o cavalo mecânico e o semirreboque e transforma um caminhão a diesel em híbrido, sem qualquer mudança no motor. Segundo a empresa, a solução pode cortar até 85% das emissões de dióxido de carbono. A primeira operação comercial está prevista para este ano, perto de Portland, no Oregon.
O problema que a solução quer resolver
A eletrificação de frotas pesadas costuma esbarrar no preço: os caminhões elétricos custam o dobro ou o triplo de um equivalente a diesel. Somam-se a isso a autonomia limitada e as recargas demoradas. A proposta da Revoy é contornar o entrave sem exigir a troca de toda a frota, aproveitando os veículos que o transportador já possui.
Como o equipamento funciona
O módulo tem 3,96 metros de comprimento e 9,9 toneladas. Carrega uma bateria de fosfato de ferro e lítio (LFP) de 575 kWh, capacidade equivalente à de um caminhão elétrico completo, que alimenta um eixo motorizado próprio.
- Quando o motorista acelera, o sistema identifica a demanda de carga e assume parte do esforço de tração, aliviando o motor a diesel.
- Nas frenagens, opera em modo regenerativo para recarregar as baterias. Segundo a Revoy, isso reduz em até 30% a distância de parada.
- A instalação não exige modificação no caminhão nem na carreta, e o módulo traz sistemas ativos contra capotamento e efeito canivete.
- Com peso bruto total de 36,3 toneladas, o conjunto roda mais de 322 km apenas em modo elétrico.
Consumo, custos e modelo de negócio
De acordo com a empresa, o consumo médio de um caminhão pesado cai de uma faixa entre 29,4 e 39,2 litros por 100 km para algo entre 6,7 e 11,8 litros por 100 km. Em rotas de até 241 km, o número pode chegar a 5,9 litros por 100 km. O CEO Peter Reinhardt afirma que o combustível responde por mais de um quinto dos custos operacionais de um caminhoneiro, e que o diesel no varejo americano segue cerca de 40% acima do patamar de US$ 3,80 por galão anterior ao atual conflito no Oriente Médio.
Para evitar que o veículo fique parado em recargas prolongadas, a Revoy aposta na troca rápida: em bases ao longo das rodovias, o módulo descarregado é substituído por outro cheio em menos de cinco minutos. O hardware não é vendido. A empresa mantém a propriedade dos dollies e cobra do frotista uma assinatura por milha rodada.
Autorização, testes e próximos passos
A Revoy recebeu autorização da NHTSA, a agência de segurança viária dos Estados Unidos, em 2023, e concluiu em 2024 um piloto de um ano com a transportadora Ryder. A primeira operação comercial acontece em um trecho de 322 km perto de Portland, com quatro unidades montadas a partir de componentes chineses.
O mercado potencial ajuda a explicar o interesse dos investidores: os Estados Unidos têm 3 milhões de caminhões pesados registrados, responsáveis por 6,7% de todos os gases de efeito estufa do país. A startup acaba de captar US$ 27 milhões, o que eleva o total levantado a US$ 41 milhões. Ela vai desenvolver uma segunda geração do dolly, mais barata e com bateria menor, mas de autonomia equivalente, com a meta de ter dezenas de unidades em rotas americanas até o fim de 2027.
O que isso significa para o mercado brasileiro
A tecnologia ainda está em fase inicial e opera nos Estados Unidos, sem previsão informada para outros países. Ainda assim, a ideia de eletrificar parte da tração sem substituir o cavalo mecânico mostra um caminho alternativo para a descarbonização do transporte pesado, tema que também interessa a frotistas brasileiros. Os resultados da operação em Oregon serão um indicativo importante de que a promessa se sustenta na estrada.
