
A prisão do ex-ministro de Hidrocarbonetos da Bolívia, Mauricio Medinaceli, nesta terça-feira (28) em La Paz, foi mais um episódio do escândalo da “gasolina basura”: uma gasolina fora de especificação e fornecida pelo próprio governo, que travou motores no país inteiro. Medinaceli é investigado por descumprimento de deveres e conduta antieconômica, sem condenação até agora.
O caso, porém, é bem maior que a prisão. Entenda como a Bolívia chegou aqui.
Um subsídio que caiu — e uma gasolina que chegou
Em 17 de dezembro de 2025, o presidente Rodrigo Paz assinou o decreto que encerrou o subsídio aos combustíveis mantido por mais de 20 anos. O litro custava cerca de US$ 0,53; da noite para o dia, a gasolina especial passou a Bs 6,96 (cerca de US$ 1) e o diesel, a Bs 9,80.
A intenção era dupla: acabar com as filas quilométricas nos postos e diminuir o rombo nas reservas do Estado. Segundo Medinaceli, ainda ministro, manter o subsídio custaria US$ 3,5 bilhões em 2026 — 6,4% do PIB boliviano.
O ponto central é que quem importa combustível na Bolívia é o Estado. Sem litoral e sem refino suficiente, o país compra gasolina pronta no exterior pela estatal YPFB, que também a distribui aos postos. O produto que danificou os carros chegou pelo canal oficial de fornecimento.
Duas explicações para a mesma borra
Sobre o que exatamente havia na gasolina, o próprio governo apresentou duas versões — e elas não são idênticas.
Em fevereiro, a YPFB admitiu falha de especificação. Segundo Yussef Akly, então presidente da estatal, havia goma e manganês fora dos parâmetros, gerados em dois tanques de armazenamento que a empresa isolou. Daí o termo oficial “gasolina desestabilizada”: compostos instáveis que, em contato com o oxigênio, formam uma borra pegajosa.
Em março, o discurso mudou para adulteração deliberada. Paz acusou uma “rede criminosa” entre Chile e Bolívia: caminhões-tanque destinados ao país seriam parcialmente esvaziados no porto de Iquique, o produto vendido ilegalmente ali e o volume reposto com água e óleo para disfarçar a diferença. O governo falou em 5.000 caminhões e US$ 150 milhões em combustível adulterado entre outubro de 2025 e março de 2026.
A acusação contra Medinaceli é uma terceira coisa: relatório da comissão especial da Câmara dos Deputados sustenta que, sob sua gestão, autorizou-se a venda de gasolina imobilizada por suspeita de qualidade, apesar de alertas prévios da Agência Nacional de Hidrocarbonetos (ANH).
O que isso faz com o motor
A borra não queima: ela adere. O Colégio de Engenheiros Mecânicos da Bolívia relatou injetores obstruídos, filtros saturados, bombas de combustível danificadas, catalisadores comprometidos e perda de potência. Carros modernos sofrem mais, porque seus sistemas de injeção trabalham a pressões muito mais altas — qualquer impureza vira abrasivo.
Motoristas de transporte público ouvidos pelo Los Tiempos descreveram um resíduo que apelidaram de “caramelo”, válvulas tortas e motores que não pegavam mais. Consertar injetores e válvulas saía por Bs 700 a Bs 1.000; trocar o motor, de Bs 7.000 a Bs 8.000.
Quantos carros, afinal
Não existe número auditado de veículos danificados — o que há são registros de reclamação. A YPFB criou em 3 de março o SREC, sistema que recebia pedidos de indenização por WhatsApp. Até o início de junho, eram 66.928 reclamações no país, das quais 45.422 validadas como pedidos líquidos, e mais de 27.800 veículos já indenizados, com pagamentos acima de Bs 85 milhões. O prazo fechou em 15 de maio.
A crise saiu das oficinas e foi para a rua: greves de transportistas em La Paz e El Alto, bloqueios em seis departamentos em maio. Em 22 de abril, Medinaceli deixou o cargo, horas depois da renúncia da então presidente da YPFB, Claudia Cronenbold. Cerca de 300 funcionários do setor foram demitidos — as autoridades falaram em “mão negra” na mistura. A ANH iniciou um cronograma de limpeza dos tanques de todos os postos do país.
