Em 1985, o Mitsubishi Pajero conquistou sua primeira vitória no Rali Paris-Dakar, e a conquista também foi a primeira de uma fabricante japonesa na história da prova. Para chegar lá, a Mitsubishi manteve muito pouco do SUV original: o carro de competição ganhou carroceria de materiais compostos, motor turbo mais potente e suspensão traseira totalmente nova.
Um SUV com dupla personalidade
O Pajero ocupa uma posição curiosa no imaginário popular. Para quem não liga muito para carros, é um SUV grande, confortável e até "chique". Para os entusiastas, é um clássico, um ícone do off-road, um favorito de quem pratica overlanding e um dos projetos mais bem-sucedidos nos ralis de longa duração.
A relação da Mitsubishi com os utilitários de tração integral nasceu da reconstrução do pós-Guerra. Em 1953, a marca assinou um acordo de licença com a Willys-Overland para produzir o Jeep CJ-3B no Japão, vendido como Mitsubishi Jeep. Na virada para os anos 1970, o 4x4 deixava de ser só ferramenta de trabalho e virava objeto de lazer, e a Mitsubishi percebeu que precisava de um projeto próprio, desenhado do zero.
O primeiro conceito com o nome Pajero apareceu em 1973, no Salão do Automóvel de Tóquio. O nome vem de Leopardus pajeros, o gato-das-pampas. Em países de língua espanhola o modelo foi batizado como Montero, e no Reino Unido como Shogun. Em 1979, o Pajero II Concept já era praticamente igual ao carro de produção, e o modelo chegou às concessionárias japonesas em maio de 1982.
Da estreia no Dakar ao carro de 1985
A grande novidade do Pajero era a suspensão dianteira independente, com braços triangulares sobrepostos e barras de torção, algo recebido com ceticismo pelos jipeiros mais conservadores. Sob o capô, havia o quatro-cilindros a gasolina 4G54, de 2.6 litros, e o 2.3 Turbo Diesel (4D55), que fez do Pajero o primeiro utilitário 4x4 de passageiros japonês a sair de fábrica com esse tipo de motor.
Em janeiro de 1983, a Mitsubishi alinhou em Paris com o Pajero, inscrito na classe Marathon, para veículos de produção praticamente sem modificações. Andrew Cowan venceu a classe e terminou em 11º na geral. Em 1984, a marca migrou para a classe Modified, e Cowan levou o Pajero ao 3º lugar geral, atrás do Range Rover de Patrick Zaniroli (2º) e do Porsche 953 (1º).
Para 1985, a Mitsubishi contratou o próprio Zaniroli para pilotar ao lado de Cowan. A carroceria foi refeita com materiais compostos reforçados com fibra de carbono e Kevlar, e o conjunto ficou 200 kg mais leve que o carro de 1984. O motor 4G54 ganhou intercooler de grande volume e um turbocompressor superdimensionado, o Mitsubishi TD06-17C, passando de 145 cv na versão de rua para 222 cv. Uma válvula bypass evitava o compressor surge durante as reduções de marcha e mantinha a turbina cheia.
O chassi também mudou. O cardã dianteiro foi alongado, e com um diferencial traseiro de relação mais longa o jipe chegava a 185 km/h com mais estabilidade. A suspensão traseira de feixes de molas deu lugar a um eixo rígido three-link, molas helicoidais de curso longo, amortecedores Bilstein e barra Panhard. O porta-malas passou a abrigar uma célula de combustível de 320 litros, dois estepes e ferramental.
A vitória e a restauração do Pajero nº 552
A 7ª edição do Paris-Dakar largou em 1º de janeiro de 1985, em Versalhes. Foram 552 inscritos, 362 deles de automóveis, em 10.284 km ao longo de 22 dias, por sete países, com 7.487 km de estágios especiais. O Opel Manta de Guy Colsoul assumiu a liderança no início, enquanto a Porsche sofria com quebras. Na primeira especial da segunda metade do rali, a equipe Opel errou na navegação e teve falhas de motor, e Zaniroli assumiu a ponta. Ele venceu três especiais e abriu vantagem.
Dos 362 carros que largaram, 101 chegaram ao fim, uma taxa de sobrevivência de 27%. Zaniroli e Jean-da-Silva levaram a vitória geral, e Cowan ficou em 2º, formando uma dobradinha da Mitsubishi. A Toyota ficou em 3º, com um Land Cruiser FJ60. Depois disso, a Mitsubishi acumulou 13 vitórias gerais no Dakar, 12 delas com variações do Pajero, incluindo sete títulos consecutivos entre 2001 e 2007.
O Pajero nº 552 de Zaniroli voltou ao Japão e foi guardado no acervo histórico da marca. Em dezembro de 2025, para celebrar os 40 anos da conquista, a Mitsubishi reuniu engenheiros remanescentes das equipes de fábrica do WRC e do Dakar para restaurá-lo por completo. O motor 2.6 4G54 turbo precisou apenas de limpeza, fluidos novos e revisão de periféricos, sem troca de componentes internos principais. Os amassados e arranhões de 1985 foram mantidos. O carro foi apresentado no Japan Mobility Show e voltou a andar em exibições dinâmicas pelo Japão.
Para o mercado brasileiro, onde o Pajero é lembrado tanto como utilitário de luxo quanto como ícone do off-road, a história ajuda a explicar a reputação do modelo entre os entusiastas. O novo Pajero mantém a receita de carroceria sobre chassi, motor turbodiesel e tração 4x4, mas investiu no refinamento estético e no interior, e há quem diga que ele perdeu a "cara e o jeito" Pajero. Segundo a fonte, um eventual retorno ao Dakar seria uma forma de provar que ele não deve nada aos antecessores.
