sábado, 3 de outubro de 2026

BMW quer gastar menos com peças escondidas e prevê que componentes de mercado dominem suas compras até 2032

A BMW pretende ampliar a compra de componentes padronizados e prevê que eles representem a maior parte do seu orçamento de compras até 2032. Na prática, uma parcela cada vez maior das peças escondidas sob a carroceria dos futuros modelos da marca alemã deixará de ser desenvolvida exclusivamente para ela. A mudança é uma das ferramentas centrais para melhorar a rentabilidade da companhia.

O que a BMW anunciou aos investidores

As informações foram apresentadas aos investidores entre 29 e 30 de setembro. Segundo a fabricante, até 2032 os componentes classificados como melhores ofertas disponíveis na indústria deverão ocupar a maior fatia do orçamento anual de compras, que chega a € 80 bilhões (R$ 472 bilhões) por ano. Já a participação dos componentes exclusivos deverá cair para menos da metade do nível atual.

A BMW não divulgou percentuais detalhados. Afirmou, porém, que sua área de compras deixará de atuar apenas como fornecedora interna e passará a participar diretamente da criação de valor.

Qualidade e diferenciação seguem como prioridade

Milan Nedeljkovic, CEO da BMW, já havia antecipado a estratégia em julho, ao destacar a evolução da oferta dos fornecedores automotivos. Segundo o executivo, existem hoje padrões industriais capazes de atender às exigências da empresa, o que torna pouco racional desenvolver alternativas próprias em todas as situações.

Nedeljkovic ressaltou que a mudança não deve implicar concessões em qualidade, desempenho ou nas características consideradas fundamentais para diferenciar os veículos da marca. A lógica é concentrar investimentos no que o cliente efetivamente percebe, enquanto as peças menos visíveis aproveitam soluções já desenvolvidas e disponíveis no setor.

A estratégia está ligada às metas financeiras do negócio automotivo. O objetivo de médio prazo é uma margem entre 3% e 5% até 2028, ante os 2,3% registrados nos resultados mais recentes.

Pressão da concorrência chinesa e movimento da indústria

A BMW não apontou fabricantes chinesas como inspiração, mas a ampla padronização de peças se tornou uma das vantagens de custos da indústria da China. Philippe Houchois, analista automotivo da Jefferies, destacou que até marcas chinesas menores conseguem alcançar escala porque usam componentes padronizados por grande parte do setor.

O movimento não é exclusivo da BMW. Jim Baumbick, responsável pela Ford na Europa, afirmou em junho que as fabricantes chinesas atingiram um nível extremamente elevado de comoditização de componentes pouco percebidos pelos clientes. Segundo ele, desenvolver um farol completamente novo pode acrescentar três meses a um programa de veículo, em comparação com o uso de componentes modulares já disponíveis. A Ford também adota uma abordagem semelhante, concentrando recursos nos elementos que realmente diferenciam seus produtos.

No Japão, Koji Sato, ex-CEO da Toyota e presidente da Japan Automobile Manufacturers Association, defendeu maior uso conjunto de componentes pela indústria. Ele citou tipos de aço, plásticos e chicotes elétricos como áreas em que a padronização poderia liberar recursos para tecnologia e ganhos de produtividade.

Parcerias e inteligência artificial nas compras

A reorganização das compras também envolverá cooperação mais profunda com parceiros tecnológicos considerados estratégicos para custos, segurança de fornecimento e competitividade. Um exemplo citado é a parceria com a Qualcomm em sistemas de assistência ao motorista de nível 2+, área em que componentes e tecnologia compartilhada podem reduzir o desenvolvimento próprio.

A inteligência artificial também ganhará espaço na área de compras, analisando dados de fornecedores para acelerar decisões e melhorar a qualidade das escolhas. Segundo a BMW, isso deverá gerar vantagens estruturais de custos no longo prazo, complementando a maior adoção de componentes padronizados.

O que muda para o mercado brasileiro

A notícia não traz anúncios de produtos ou preços para o Brasil, mas indica um caminho que tende a se repetir entre as fabricantes tradicionais: padronizar o que o cliente não vê para investir no que diferencia o carro. Com BMW, Ford e a indústria japonesa discutindo estratégias parecidas, a competição por custo com as marcas chinesas, cada vez mais presentes no mercado brasileiro, segue como pano de fundo das decisões de desenvolvimento e compras do setor.

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