A antiga fábrica da Ford em Camaçari, na Bahia, virou símbolo de uma nova fase da indústria automotiva brasileira, marcada pela expansão chinesa e por desafios locais. Uma reportagem em vídeo da BBC News Brasil investiga essa mudança ao ouvir moradores, trabalhadores, professores e especialistas sobre os efeitos da chegada da BYD à região.
Da Ford à BYD: o maior complexo da marca na América Latina
A BYD instalou seu maior complexo na América Latina na área antes ocupada pela Ford, que encerrou suas atividades no Brasil em 2021. Segundo a reportagem, a unidade baiana já ultrapassou 100 mil veículos montados em menos de um ano, embora ainda utilize kits importados da China nessa primeira etapa. O início de novas etapas de fabricação nacional está previsto para o fim deste ano, em meio à expansão acelerada das operações.
A BYD informou à BBC que emprega 7.618 pessoas diretamente e pretende chegar a 10 mil até dezembro. Os estrangeiros representam 6% dos profissionais atuais, ou 457. Esse contingente contrasta com os boatos sobre a chegada de mais de 10 mil chineses, que circularam nas redes sociais e motivaram parte da investigação. Dados de vistos citados pela emissora apontam pouco mais de 2 mil registros para cidadãos chineses em Camaçari e Lauro de Freitas, majoritariamente temporários.
Mudanças na cidade: aluguéis, qualificação e cultura
A transformação ultrapassa os portões da fábrica. A presença dos profissionais chineses já movimenta o mercado imobiliário, com alta aproximada de 50% nos aluguéis de um condomínio, segundo a corretora Cássia. Aulas de idiomas, trocas culturais e novos negócios também ganham espaço, como relata Alice, que ensina português a chineses.
- Valquíria, ex-vendedora de eletrodomésticos, estuda no SENAI para tentar uma vaga na indústria e ampliar a participação feminina.
- Os professores Gelson e Cláudio, veteranos de montadoras tradicionais, viajaram à China para treinamento e descrevem instalações gigantescas, com alto nível de automação.
- Gelson chegou à Bahia para trabalhar no projeto da Ford, inaugurado em 2001 e responsável por até 250 mil carros anuais em seu auge.
Denúncias trabalhistas e o passado das obras
O entusiasmo com os novos empregos divide espaço com denúncias sobre as relações de trabalho dentro da fábrica. Júlio Bonfim, presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de Camaçari, relata queixas de assédio moral e sexual, além de conflitos envolvendo cobranças e estilos de gestão. Em julho, segundo o dirigente, 2.700 trabalhadores deixaram a unidade após uma assembleia em protesto contra notificações recebidas por dois representantes sindicais.
A reportagem informa que o Ministério Público do Trabalho abriu um procedimento sobre as denúncias de assédio, posteriormente arquivado por falta de provas. Procurada pela BBC, a BYD afirmou não tolerar assédio nem outras condutas ilegais e disse manter canais confidenciais para apurar relatos e adotar providências cabíveis. A BBC diz que tentou entrar na fábrica por dois meses, sem autorização, e relata que empregados evitam entrevistas por receio de represálias.
O vídeo também relembra o resgate de 163 trabalhadores chineses submetidos a condições análogas à escravidão durante as obras do complexo, em 2024. Segundo a montadora, um acordo firmado em dezembro passado estabeleceu pagamento de R$ 40 milhões por empreiteiras terceirizadas, sem condenação judicial no processo.
O pano de fundo global
No plano global, a BBC relaciona a expansão da BYD à disputa tecnológica entre China e Estados Unidos, especialmente no mercado de EVs. A marca chinesa superou a Tesla nas vendas mundiais de EVs no ano passado, resultado associado pelo especialista Rogério à escala industrial e ao investimento tecnológico. O professor Wendell defende que o Brasil aproveite os investimentos estrangeiros para desenvolver tecnologia própria, em vez de substituir uma dependência econômica por outra.
Para o mercado brasileiro, o caso de Camaçari mostra os dois lados da chegada das montadoras chinesas: produção em escala, empregos e movimentação econômica de um lado, e questionamentos sobre condições de trabalho do outro. Para a cidade, o desafio agora é transformar o retorno da produção automotiva em empregos duradouros, melhores relações trabalhistas e benefícios para a população.
