Um recurso pensado para proteger pedestres e ciclistas acabou revelando um uso bem diferente no novo Mazda CX-6e. O SUV elétrico tem um alto-falante dianteiro chamado External Announcement, que reproduz avisos prontos, mensagens digitadas pelo motorista e até a voz dele. Em testes na Austrália, jornalistas constataram que praticamente não há barreiras que impeçam o sistema de reproduzir palavras impróprias.
Como funciona o External Announcement
A Mazda apresentou globalmente a tecnologia junto ao CX-6e, em janeiro, como parte da interface entre o motorista, o veículo e as pessoas ao redor. A função foi concebida como recurso de segurança. Como um carro elétrico é quase silencioso, o alto-falante permite emitir avisos digitalizados a quem atravessa diante dele.
O sistema vai além do aviso pronto. O motorista pode escrever uma frase na tela de 26,45 polegadas, guardá-la como atalho e reproduzi-la depois pelo alto-falante externo. Também é possível usar o equipamento como comunicação ao vivo, o que transforma o carro, na prática, num pequeno equipamento de anúncio público sobre rodas.
Essa liberdade diferencia a solução dos avisos sonoros exigidos para híbridos e elétricos nos Estados Unidos. Lá, os sons são previamente definidos e aprovados.
O que os testes mostraram
Durante as avaliações do CX-6e, os jornalistas descobriram que o sistema reproduzia praticamente qualquer conteúdo digitado no campo de mensagens personalizadas, inclusive linguagem imprópria. Também não foi identificada limitação relevante para o que o motorista pode dizer diretamente pela função de transmissão de voz ao vivo.
A Mazda ainda não divulgou posicionamento específico sobre a possibilidade de inserir palavrões nas mensagens. Tampouco anunciou uma atualização para criar filtros de linguagem. Nos materiais de lançamento e nas páginas oficiais do CX-6e, a fabricante descreve o External Announcement de maneira neutra, como parte dos recursos de segurança e interação.
Risco de multa na Austrália
O SUV, produzido na China, já é vendido em mercados como Europa e Austrália. Na Austrália, o uso inadequado do alto-falante externo pode trazer consequências financeiras.
- Estados como Queensland e Nova Gales do Sul têm regras que restringem o uso de buzinas e de outros dispositivos externos de aviso aos demais usuários da via.
- As autoridades também podem aplicar multas por linguagem imprópria em público. Não existe, porém, uma infração específica dedicada ao sistema externo do Mazda.
- Na Austrália Ocidental, normas de trânsito e de ordem pública preveem penalidades para certos usos inadequados de alto-falantes automotivos. A legislação local fala em valor máximo de AUD 6.000 (R$ 20.800) nos casos que possam ser enquadrados como uso impróprio ou ofensivo do equipamento externo.
Um alerta sobre personalização
Hoje, o sistema depende principalmente do bom senso de quem está ao volante para definir o que será transmitido ao lado de fora. A Mazda já adotou outras soluções pouco convencionais de interface, como a troca de comandos físicos por telas sensíveis ao toque em alguns modelos.
O episódio mostra como novas formas de interação dos elétricos com pedestres podem gerar questões inesperadas quando dão ao motorista liberdade para personalizar mensagens públicas.
Para o mercado brasileiro, o caso é um sinal de atenção. À medida que os carros elétricos ganham recursos de comunicação com quem está fora do veículo, fabricantes e reguladores terão de decidir até onde vai a liberdade do motorista. A fonte não traz informações sobre a chegada do CX-6e ao Brasil, mas a discussão sobre limites e responsabilidade no uso desses equipamentos tende a ser relevante em qualquer mercado em que eles apareçam.
