A Volkswagen realmente construiu um BMW M5 E39 com motor W10. O carro foi um projeto secreto, idealizado por Ferdinand Piëch, e só foi confirmado no ano passado, depois de quase vinte e cinco anos, quando o site Drivetribe foi atrás da história. Agora, o protótipo será oferecido pela casa de leilões Broad Arrow no evento Zoute Concours, na Bélgica, no dia 9 de outubro.
O BMW M5 E39 e o que a Volkswagen mexeu nele
O M5 E39 é um sedã executivo transformado em esportivo legítimo, nascido na virada do século 21. Originalmente, usava o motor S62, um V8 de 4,9 litros com 400 cv, 51 kgfm de torque e câmbio manual de seis marchas como única opção. Ia de zero a 100 km/h em 4,8 segundos e passava dos 300 km/h sem o limitador. Foi também o primeiro M5 a usar componentes de alumínio na suspensão e um eixo multilink na traseira.
A Volkswagen comprou um exemplar do ano 2000, na cor Carbon Black Metallic, com interior de couro preto. Na oficina secreta, o S62 foi removido e descartado. Segundo relatos, a marca gastou quase dois milhões de euros para instalar e acertar o W10 experimental. A caixa de seis marchas foi mantida, mas os periféricos foram trocados por peças sob medida, como a caixa de ar em fibra de carbono, o arrefecimento e o escape.
A eletrônica deu mais trabalho. Fazer o motor de uma fabricante conversar com o chassi de outra era complicado, e a Volkswagen precisou criar o seu próprio sistema programável. No fim, o carro perdeu ABS, controle de tração e controle de estabilidade. Por dentro, o cluster da BMW foi substituído por um painel de corrida aftermarket da Stack, e medidores auxiliares foram instalados no console central.
Por que um W10 e por que Piëch
A ideia partiu de Piëch, conhecido por incentivar experimentações arriscadas na Volkswagen. Foi ele quem exigiu que o Phaeton rodasse a 300 km/h em um dia de 50°C mantendo o interior a 22°C, quem encomendou o V10 turbodiesel do Touareg e quem insistiu no Bugatti com motor de dezesseis cilindros, quatro turbos e 1.001 cv.
A lógica dos motores em W nasceu do VR6, que usava um "V" estreito, com apenas quinze graus entre as bancadas, e um único cabeçote. Ao unir dois blocos VR em um virabrequim, surgiram o W8 do Passat, os W12 do Audi A8 e do Bentley Continental e o W16 do Bugatti Veyron. Como a Volkswagen também tinha o VR5, juntar duas bancadas dele resultaria em um W10, compacto e simétrico, sem os problemas de vibração típicos de um V10 convencional.
Em 1999, Piëch ordenou um W10 para um sedã de altíssimo desempenho. Uma equipe liderada por Sabine Willeke construiu um motor novo, em alumínio, de cerca de cinco litros, sem indução forçada. Como o grupo não tinha um carro adequado para testá-lo, a escolha recaiu sobre o M5 E39, que tinha espaço no cofre, comportamento dinâmico e câmbio manual Getrag, mais simples para o acerto eletrônico. Testes iniciais em dinamômetro apontaram 480 cv nas rodas traseiras, o que daria mais de 530 cv no virabrequim, cerca de 130 cv a mais que o motor original.
Da lenda ao leilão
Dizia-se que Piëch usava o carro para ir ao trabalho em Wolfsburg. A realidade, revelada mais recentemente, é menos cinematográfica: ele dirigiu o M5, com placas temporárias, e participou dos testes secretos em vias públicas. O hodômetro do painel de corrida nunca foi configurado e está zerado até hoje, então ninguém sabe quanto o motor rodou.
Segundo Sabine Willeke, foram construídos apenas três motores W10. Um ficou com um mecânico da Volkswagen na Alemanha, outro está em um expositor que acompanha o M5, e o terceiro está no próprio sedã. A Volkswagen encerrou o projeto e nunca levou o W10 à produção, ficando com W8, W12 e W16.
O carro passou mais 15 anos escondido na garagem de um colecionador e engenheiro ligado à indústria. Depois, foi comprado por um entusiasta da Eslováquia, que o emplacou e o dirigia com regularidade. A estimativa para o leilão é de €250.000 a €350.000.
Há ainda uma coincidência curiosa. Só cinco anos depois do fim dos testes com o W10, a BMW apresentou o M5 E60, com motor de dez cilindros, cinco litros e 507 cv. O S85 era um V10 inspirado nos motores de Fórmula 1 da marca e foi o último motor aspirado usado em um M5.
Para o mercado brasileiro, o episódio é, antes de tudo, um registro de uma época em que as fabricantes bancavam projetos sem concessões em nome da inovação. Hoje, muitos esportivos migraram para V6 ou V8 turbo, ou abandonaram a combustão, o que torna um W10 aspirado em um M5 ainda mais singular para os entusiastas.
