domingo, 9 de agosto de 2026

Dirigir com sono pode ser tão perigoso quanto conduzir embriagado

Dirigir com sono pode ser tão perigoso quanto conduzir embriagado

Apesar de ser algo corriqueiro e natural para muitas pessoas, o ato de dirigir exige do condutor muita atenção e domínio das capacidades cognitivas. Porém, após longas jornadas de trabalho ou trajetos na estrada, essas capacidades ficam prejudicadas pelo cansaço e, principalmente, pelo sono, cujos sintomas podem ser comparados à embriaguez.

Segundo relatório da Associação Brasileira de Medicina de Tráfego (Abramet) de 2019, dormir ao volante é a 3ª maior causa de acidentes de trânsito no país. Outro estudo mais recente realizado pela pela Denox, em parceria com a MedNet, mostrou que a situação é crítica e vai além do sono, já que 60% dos acidentes rodoviários no Brasil têm como causa principal a fadiga dos motoristas.

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Adalgisa Lopes, especialista em segurança viária e presidente da Associação das Clinicas de Transito do Estado de Minas Gerais (Actrans-MG) afirma que 90% dos acidentes de trânsito têm como causas os fatores humanos, sendo que a fadiga está entre os principais gatilhos. A especialista ainda destaca alguns efeitos do sono:

O motorista perde a noção do próprio limite, acredita que aguenta mais uma hora quando suas funções cognitivas já estão severamente degradadas. A percepção de risco fica distorcida, a tolerância à frustração diminui, e surgem irritabilidade e impulsividade. Isso aumenta consideravelmente o risco de acidentes.”

Já Giovana Varonni, especialista em Psicologia do Trânsito da Actrans, detalha o que acontece na mente de um condutor privado de sono. Segundo ela:

  • Permanecer acordado por 19 horas seguidas gera uma degradação do desempenho psicomotor equivalente a uma alcoolemia de 0,05%.
  • Vinte e quatro horas sem dormir equivalem a 0,10%, patamar que configura crime de trânsito no Brasil.
  • O cérebro exausto ativa mecanismos de defesa involuntários, como o microssono, que dura de um a cinco segundos. Nesse intervalo, o motorista pode estar de olhos abertos, mas está clinicamente dormindo. A 80 quilômetros por hora, quatro segundos de microssono significam quase 90 metros percorridos sem nenhum controle do veículo.

Varonni descreve também o fenômeno da hipnose da estrada: a condução prolongada em pistas monótonas induz a um estado de dissociação em que o motorista executa os movimentos de forma automática, mas a mente está desconectada do ambiente. O resultado é a chamada cegueira por desatenção, em que o condutor olha para a pista, mas o cérebro não processa o que está à sua frente.

Perigo é ainda maior para caminhoneiros e motoristas de ônibus

A fadiga e sono são fatores de risco para todos os condutores, mas especialmente para motoristas profissionais, que são protegidos pela Lei do Descanso. No entanto, muitas vezes a legislação é deixada de lado e esse grupo precisa lidar com jornadas prolongadas, pressão por prazos e a necessidade de percorrer longas distâncias no menor tempo possível.

Por dia, quase 280 motoristas foram autuados por violação à Lei do Descanso nas rodovias federais do país. Segundo a Actrans, parte do problema está na falta de infraestrutura para que os caminhoneiros descansem.

A associação destaca que existem apenas 139 Pontos de Parada e Descanso certificados em todo o território nacional, distribuídos em 22 estados e ao longo de 37 rodovias. Esse é um número muito reduzido frente à malha rodoviária federal brasileira, que tem 75,8 mil quilômetros, segundo dados da PRF.

Há vastos trechos onde o motorista não encontra um lugar seguro para estacionar e dormir. As opções ficam reduzidas a parar no acostamento de uma rodovia escura e deserta, sob risco de roubo, ou seguir adiante. E muitos condutores preferem continuar a viagem para não perder a carga ou o prazo de entrega e acabam arriscando a própria vida e a de terceiros.

Como evitar o sono ao volante

Caso você perceba os sintomas iniciais, como os olhos pesados, ou aquelas piscadas mais longas, a decisão mais correta é uma só: não brigue com o sono. Travar essa batalha é inútil, já que nessa situação há redução da capacidade de raciocínio, falta de atenção, perda dos reflexos, falhas de memória, entre outros problemas.

Mas, ainda assim, existem algumas dicas e cuidados úteis que funcionam como paliativos para prevenir que os primeiros sinais cheguem e que você acabe cochilando enquanto dirige:

  • Sempre tenha petiscos com você: é sempre válido deixar no veículo alguns biscoitos e outros snacks que te deixem mastigando mais tempo e para ingerir de forma gradual. Chicletes ou balas de goma também cumprem essa função;
  • Bebidas com cafeína: café, energéticos e refrigerantes a base de cola pode ser bons aliados para evitar a sonolência, desde que sejam tomados com moderação;
  • Posição do banco: ajustar o banco para que o motorista fique mais ereto, mesmo que com um leve desconforto, também pode ser uma boa estratégia, desde que não prejudique o ato de dirigir;
  • Volume da música: escutar música em um volume mais alto, que não prejudique sua atenção no trânsito é uma boa opção. Seja na rádio ou em sua playlist, dê preferência para canções animadas e conhecidas por você;
  • Vento te ajuda a ficar acordado: abrir a janela e permitir que o vento sopre no rosto, ajuda o condutor a ficar mais desperto;
  • Programe paradas: em casos de viagens ou longas distâncias, faça pausas no trajeto entre as horas na direção. Sempre saia do automóvel, respire um ar fresco, ande e se alongue. Lavar o rosto, pulsos e mãos com água fria também é interessante.

Apesar dessas dicas serem úteis, é preciso deixar claro que elas são apenas paliativas. Se você sentir que o sono está chegando, o melhor a se fazer é parar no primeiro local seguro, sempre para não dormir ao volante. Nem que essa pausa seja para uma soneca de 20 ou 30 minutos.

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