A Chery quer ser vista como mais do que uma montadora. Durante o International User Summit 2026, realizado em Wuhu, na China, a marca dedicou boa parte do evento a temas como inteligência artificial generativa, semicondutores, processamento de dados e robótica. Entre os destaques, está uma arquitetura de IA criada para ajudar sistemas de condução inteligente a compreender situações de trânsito em diferentes partes do mundo.
Uma montadora que se define como empresa de IA
A ambição foi resumida pelo presidente do grupo, Yin Tongyue, que definiu a Chery como uma empresa de inteligência artificial que veste a roupa de fabricante de automóveis. A declaração é provocativa, mas ajuda a entender a estratégia: deixar de ser vista exclusivamente como montadora e se consolidar como uma empresa global de tecnologia.
Esse horizonte está na estratégia "Yaoguang 2035", pela qual o grupo pretende ser uma companhia global de tecnologia impulsionada por inteligência artificial, com atuação em áreas como mobilidade, energia, alimentação e qualidade de vida. A visão também inclui a "2050 Future Academy", iniciativa de pesquisa e formação de talentos desenvolvida em parceria com a Universidade de Ciência e Tecnologia da China.
All World Engine: um cérebro digital para a condução
O All World Engine (AWE) é uma arquitetura de inteligência artificial que integra percepção, interpretação e tomada de decisões na condução. O objetivo é enfrentar um problema complexo: fazer sistemas inteligentes entenderem o trânsito em lugares muito diferentes, como uma avenida de Xangai, uma estrada europeia ou uma rua movimentada de uma capital brasileira. Mudam a sinalização, o comportamento dos motoristas e a forma como pedestres e motociclistas dividem o espaço. Os próprios veículos também variam em câmeras, radares, chips e capacidade de processamento.
O pesquisador Hu Weilong afirmou que essa diversidade é um dos principais desafios para desenvolver condução inteligente em escala global. A proposta do AWE é criar uma base tecnológica compartilhada, capaz de se adaptar a veículos e mercados distintos. Ele reúne três componentes:
- Chery World Corpus: a IA aprende. Usa ambientes simulados para treinar e avaliar os sistemas diante de situações variadas, incluindo cenários de alto risco e condições extremas.
- Chery Vision Language Navigation: a IA compreende. Combina percepção visual, informações de sensores e compreensão de linguagem para interpretar o ambiente, indo além do simples reconhecimento de objetos.
- Chery Driver Agent: a IA decide. É a camada que planeja respostas a partir das informações interpretadas, com o objetivo de antecipar situações de risco.
Mais de 700 mil cenários simulados
Segundo a empresa, o Chery World Corpus já reúne mais de 700 mil cenários simulados, incluindo 300 mil situações classificadas como de alto risco e 20 mil cenários extremos. É uma espécie de escola virtual de direção, em escala difícil de reproduzir nas ruas. Um carro circulando à noite sob chuva intensa, com um pedestre surgindo entre dois veículos estacionados, é um exemplo do tipo de desafio que a IA precisa aprender a interpretar.
A vantagem das simulações, conforme a marca, é expor os sistemas repetidamente a situações complexas, inclusive perigosas ou raras em testes convencionais. Isso não elimina a necessidade de validação no mundo real, e os números apresentados não comprovam, por si só, que os sistemas sejam mais seguros que os da concorrência.
Chips, pesquisa e robôs
A Chery também investe em semicondutores e sistemas eletrônicos. O grupo destacou chips de potência de carbeto de silício (SiC), usados em aplicações de alta eficiência energética. Segundo a empresa, uma primeira geração, voltada para sistemas elétricos de 800 Volts, já chegou à produção em série e à aplicação em veículos. O grupo informou ter direcionado mais de 110 bilhões de yuans a pesquisa e desenvolvimento nos últimos cinco anos e ter mais de 30 mil profissionais dedicados à área em sua estrutura global.
No evento, a fabricante apresentou ainda robôs humanoides da AiMOGA, sua divisão de robótica. Entre eles está a Mornine, que poderá atuar no atendimento das concessionárias da Omoda & Jaecoo no Brasil, recebendo visitantes, apresentando veículos e respondendo a perguntas de consumidores. Robôs e carros inteligentes compartilham desafios: reconhecer o ambiente, interpretar dados de sensores e tomar decisões.
O que muda para o consumidor brasileiro
O cliente não compra algoritmos, e sim um carro que espera que seja seguro, confortável, eficiente e fácil de usar. A IA pode contribuir com assistência à condução mais sofisticada, interfaces que entendam melhor os comandos dos ocupantes, gerenciamento inteligente de energia e atualizações de software.
Ainda há um caminho entre o que foi mostrado na China e o que o consumidor brasileiro poderá usar. Essas tecnologias estão em desenvolvimento e, além de comprovar segurança, os sistemas mais avançados de direção automatizada precisam atender às legislações de cada país, o que inclui a homologação dos veículos e, para direção sem supervisão humana, regulamentação específica. Para o mercado brasileiro, o recado é que software e sistemas inteligentes começam a pesar na escolha de um carro, ao lado de motor, desempenho, consumo e conforto.
