Uma picape foi usada numa tentativa incomum de despertar um motor de 102,4 litros, numa operação que lembra a partida de um cortador de grama em escala gigante. A máquina é o Mirrlees Blackstone JS8, um turbodiesel de oito cilindros em linha que ficou décadas sem funcionar e que utiliza um sistema de partida a ar, em vez de uma ignição convencional.
Um motor feito para gerar energia, não para as ruas
O JS8 foi construído para uma tarefa muito distante do uso rodoviário. Ele foi levado à Escócia logo após a Segunda Guerra Mundial, com destino ao Ministério da Aeronáutica do Reino Unido, onde provavelmente serviria como gerador de energia em uma base da Royal Air Force.
O motor chama atenção pelo tamanho e pode estar entre os maiores já construídos. Ainda assim, a história dele não gira em torno de potência específica. A família à qual pertence chegou a versões de 16 cilindros, capazes de produzir até 2.480 cv, embora esse número não corresponda necessariamente ao JS8.
A Mirrlees já tinha mais de meio século de experiência com motores a diesel quando passou a fabricar a série J, voltada a aplicações de grande porte. Locomotivas e equipamentos industriais estavam entre os campos de atuação da empresa, considerada uma das pioneiras nesse tipo de motor.
Dois extremos: o gerador e o esportivo moderno
Para entender a diferença de propósito, vale comparar o JS8 a um esportivo atual. O Dodge Challenger Demon 170 de 2023 entregava 1.039 cv com um motor de apenas 3,0 litros, alcançando cerca de 346 cv por litro. Na série J da Mirrlees Blackstone, mesmo as configurações de maior rendimento ficavam em torno de 24 cv por litro, uma distância enorme nessa medida.
Esse contraste, porém, diz pouco sobre a utilidade de cada máquina: o Dodge foi feito para um tipo de desempenho, e o gerador, para outro. O JS8 produzia sua força abaixo de 1.000 rpm, enquanto o motor do Challenger precisava chegar a 6.500 rpm para atingir a potência máxima.
O desafio de acordar uma máquina parada
Décadas de imobilidade mudaram a escala do desafio: antes de pensar em funcionamento, era preciso lidar com uma máquina marcada pelo tempo. Foi o que encontrou Joe Hewes, conhecido como Mr Hewes no YouTube, ao se dedicar ao JS8 depois de anos de deterioração e ferrugem.
Hewes costuma recuperar grandes conjuntos mecânicos de veículos militares antigos, mas este motor apresentava uma dificuldade diferente das habituais. O JS8 não foi concebido para dar partida por meio de um sistema de ignição convencional e utiliza partida a ar, característica que torna a tentativa de fazê-lo voltar a funcionar menos familiar do que a imagem da picape sugere.
Puxar um motor desse porte pode render uma cena incomum, mas o tamanho da tarefa também aparece nos números: são 102,4 litros distribuídos por oito cilindros. A versão de 16 cilindros pertence à mesma família, enquanto o JS8 se destaca principalmente pela dimensão e pela aplicação como gerador.
O episódio reúne duas ideias difíceis de conciliar à primeira vista: uma partida improvisada com uma picape e um equipamento criado para fornecer energia.
O que isso significa para o leitor brasileiro
Embora a história não tenha relação direta com o mercado nacional, ela interessa a quem acompanha o universo automotivo e a mecânica em geral. Mais do que a potência por litro, o que torna a tentativa notável é ver um motor de outra época receber uma nova chance de funcionar.
