O presidente da Stellantis América do Sul, Herlander Zola, admitiu que a indústria automobilística ocidental, de modo geral, errou ao demorar a perceber o modelo verticalizado de produção chinesa. Em entrevista concedida esta semana, o executivo afirmou que esse desenho resultou em custos bem menores e abriu caminho para a exportação em escala mundial. Zola também defendeu que a resposta do Brasil vá além da simples elevação do imposto de importação.
O erro de leitura sobre o modelo chinês
Segundo Zola, a produção verticalizada das fabricantes chinesas garantiu uma vantagem de custo relevante. Esse foi o primeiro passo de uma estratégia que levou, em seguida, à exportação para o mundo. A indústria ocidental, avalia o executivo, demorou a entender o que estava acontecendo.
A Stellantis, vale lembrar, controla várias marcas no Brasil: Fiat, Jeep, Ram, Peugeot, Citroën e Leapmotor. O diagnóstico, portanto, vem de um grupo com presença ampla no mercado nacional.
As marcas chinesas, de acordo com a matéria-fonte, exportam com grande ajuda governamental, sem transparência quanto a custos trabalhistas reais e outros subsídios. Pressionadas pela Europa, porém, já começam a instalar fábricas no continente e talvez até nos EUA, se estes permitirem.
Barreiras tarifárias: EUA e Europa reagiram, o Brasil demorou
Tanto os Estados Unidos quanto a União Europeia ergueram barreiras tarifárias para se proteger. O Brasil, ao contrário, demorou a perceber as consequências desse movimento.
Há ainda a questão da alíquota de 35% aplicada à importação de veículos desmontados (CKD) ou semidesmontados (SKD), considerada uma barreira insuficiente. EUA e União Europeia reagiram com alíquotas muito maiores como meio de salvar os empregos locais, dispensando a antiga norma da Organização Mundial de Comércio (OMC), que estipulou alíquota máxima de 35%.
Caminhos além do imposto de importação
Para Zola, há outros caminhos possíveis. Um deles é incentivar os fabricantes de veículos a comprar aço, pneus, plásticos e outros componentes de fornecedores instalados no País. Ele lembrou que, só neste ano, serão importados 700 mil veículos leves.
O executivo foi direto: diante do cenário atual, se nada for feito, "é melhor produzir carros na China, desmontar e trazer para cá". Por isso, afirmou, é importante criar regras de estímulo.
Elétricos e incentivos estaduais
Zola também comentou a ascensão dos modelos elétricos no mercado brasileiro. Admitiu que, em alguns estados, "quem compra um carro de motor a combustão precisa ganhar um prêmio". A referência foi à isenção total do IPVA, por tempo indeterminado, para elétricos em Pernambuco, por exemplo. Outros estados também criaram incentivos.
Na capital paulista, elétricos e híbridos, inclusive os semi-híbridos, estão dispensados do rodízio pelo final de placa.
Para o mercado brasileiro, o recado é que a competitividade da indústria local depende de uma política que combine proteção tarifária com estímulo à cadeia de fornecedores instalada no País. A fala do presidente da Stellantis América do Sul reforça o debate sobre como equilibrar a entrada de veículos importados, os incentivos à eletrificação e a preservação da produção e dos empregos nacionais.
