A CFMOTO, marca chinesa que estreou no mercado brasileiro de motos em maio de 2026, viu sua reputação no Reclame Aqui cair de "Bom" para "Regular". A queda coincide com a transição da empresa, antes conhecida pelos UTVs e quadriciclos, para a venda de motos. Na última semana, o desgaste aumentou: no quinto lote de reservas, adiado de 30 de setembro para segunda-feira (5) por uma falha no banco de dados, consumidores voltaram a relatar erro no pagamento via Pix, problema registrado desde julho. Ao mesmo tempo, os números da Fenabrave mostram que a marca continua colocando motos nas ruas.
O que mudou na nota da marca
No primeiro semestre de 2026, período que cobre quase toda a fase em que a CFMOTO só vendia UTVs e quadriciclos, a marca tinha status "Bom" no Reclame Aqui, com nota 7,2. Foram 66 reclamações, 75% delas resolvidas, e 75% dos consumidores disseram que voltariam a fazer negócio.
No recorte de seis meses entre 9 de abril e 9 de outubro, a nota ficou em 6,7, com status "Regular". Das 128 reclamações do período, 89,1% foram respondidas e 62,2% resolvidas. O mesmo percentual de consumidores voltaria a comprar da marca. O resultado ainda é melhor que o do recorte de março a agosto, quando a nota era 6,0, o índice de solução era 51,7% e apenas 55,2% voltariam a comprar.
Pelos filtros da plataforma, os problemas mais citados são baixa qualidade, atraso na entrega, danos ao veículo e cancelamento de compra.
Reservas e Pix no centro das queixas
As reclamações se dividem em dois grupos: as ligadas ao processo de compra e ao atendimento, e as de quem já recebeu a moto. No primeiro, o principal alvo é o sistema de reservas, feito somente pelo site e com pagamento via Pix.
- Em julho, uma consumidora de São Paulo relatou que a moto aparecia disponível, mas, na hora de gerar o QR Code do Pix, a reserva sumia e a unidade passava a constar como esgotada.
- O problema voltou no lote de 5 de outubro, mesmo depois de a marca garantir que a infraestrutura havia sido "integralmente restabelecida e validada".
- Um consumidor de Londrina (PR) recebeu e-mail confirmando a pré-reserva, mas não conseguiu pagar e depois foi informado de que ela havia expirado.
- A marca atribuiu a falha ao volume de acessos simultâneos, explicação diferente da dada para o adiamento do lote, quando citou o banco de dados internacional.
Donos de UTVs, o antigo carro-chefe da marca no país, também aparecem nas queixas, como um cliente que aguarda solução para uma peça do para-brisa coberta pela garantia. No segundo grupo, os proprietários de motos, as reclamações cresceram com o aumento das entregas. Há ainda relatos de garantia que não pôde ser ativada por erro no cadastro do chassi.
Emplacamentos mostram outra parte da história
Segundo o Jornal do Carro, os três primeiros lotes somaram pouco mais de 1.700 unidades. O quarto, aberto em 31 de agosto, teve 500, reservadas em três minutos. Isso dá cerca de 2.200 motos oferecidas até setembro. No mesmo período, a Fenabrave contabilizou 1.883 emplacamentos, mais de 80% do volume ofertado nos quatro primeiros lotes. A conta é aproximada, porque os lotes não têm número exato divulgado e parte das reservas de agosto ainda pode estar em processo de entrega.
O ritmo se manteve estável nos dois últimos meses, mesmo com a queda da Ibex 450. O modelo respondia por 1.091 dos 1.403 emplacamentos acumulados até agosto e, naquele mês, foi a terceira maxitrail mais vendida do país, atrás de Royal Enfield Himalayan 450 e Honda NX 500. Em setembro, caiu para 284 unidades, 22,8% a menos, e os demais modelos compensaram a diferença. Isso não significa que todas as entregas tenham sido feitas no prazo, já que o atraso está entre as queixas mais citadas.
Como funciona a operação e o que diz a marca
A operação no Brasil não é feita por uma subsidiária, mas pelo Grupo Unique, de Piracicaba, que já trabalhava com os produtos off-road da marca. As motos são montadas em Manaus (AM), no sistema CKD. A CFMOTO afirma que trabalha com esse tipo de representação no mundo todo e que o grupo se reporta diretamente à CFMOTO China, como faria uma subsidiária.
Questionada, a marca reconheceu a situação e disse trabalhar para tornar a operação cada vez mais fluida. Segundo ela, a maior parte das reclamações não trata de defeitos de produto ou pós-venda, mas de consumidores que tentaram comprar e não conseguiram, porque os lotes se esgotam em poucos minutos. A empresa diz registrar, a cada lote, o acesso simultâneo de cerca de 7 a 9 mil interessados para um estoque de 500 a 600 motos. Também afirma que vê esse volume e essa procura como "estímulo, não como problema".
Para o mercado brasileiro, o caso mostra a tensão de uma estreia com demanda alta e oferta limitada por lote. A CFMOTO consegue emplacar a maior parte do que vende, mas a instabilidade nas reservas e os atrasos desgastam a imagem. Ao mesmo tempo, a marca depende de um canal de venda que ainda não acompanha o interesse do público.
