quinta-feira, 8 de outubro de 2026

Após fechar lojas, JAC Motors entra em segunda recuperação judicial com dívidas de R$ 239,5 milhões

O Grupo SHC, do empresário Sérgio Habib e responsável pela operação da JAC Motors no Brasil, entrou com um novo pedido de recuperação judicial para renegociar R$ 239,5 milhões em dívidas, envolvendo 44 empresas. É a segunda vez que o grupo recorre à Justiça para reestruturar seus passivos.

O pedido foi protocolado na terça-feira (6), segundo a informação revelada em primeira mão pela revista EXAME, que já acompanhava as negociações do grupo com seus credores. Habib está à frente da JAC no país desde 2011.

Não é a primeira vez

A SHC já havia recorrido à Justiça em 2018, depois de sentir os efeitos do chamado super IPI do Inovar-Auto e de ver seus planos de construir uma fábrica da JAC no Brasil ficarem pelo caminho. Em novembro daquele ano, quando as dívidas do grupo alcançaram R$ 517,7 milhões, a empresa apontou a crise do mercado brasileiro e as regras do Inovar-Auto entre os principais motivos para as dificuldades, especialmente pelo aumento dos impostos sobre veículos importados, dos quais a JAC dependia para abastecer suas concessionárias.

O plano da primeira recuperação foi homologado em setembro de 2019, mas o processo só terminou em maio de 2025, apenas 17 meses antes do novo pedido. Segundo a EXAME, o grupo negociava uma nova reestruturação com os credores, tentando manter parte das dívidas fora do processo. Um único banco teria mais de R$ 100 milhões a receber, enquanto outras instituições financeiras enfrentariam dificuldades para localizar e recuperar veículos dados como garantia dos empréstimos.

Da estreia com pompa ao encolhimento

Quando desembarcou no Brasil, em março de 2011, a JAC abriu 50 concessionárias em um único dia, apostando em carros mais equipados e baratos que os concorrentes. As boas vendas iniciais levaram Habib a anunciar uma fábrica na Bahia, com investimentos previstos de R$ 1 bilhão, mas o projeto nunca saiu do papel. Além disso, o SHC enfrentou o fim de uma parceria de 28 anos com a Citroën, que por muito tempo representou parte importante dos negócios do grupo.

De lá para cá, a operação encolheu bastante: a marca vendeu apenas 988 automóveis e comerciais leves em 2025, queda de 51,1% em relação ao ano anterior.

A aposta nos elétricos e a nova fase

Passada a primeira crise, a JAC tentou mudar a gama e apostar nos carros elétricos, sendo uma das primeiras a oferecer modelos mais acessíveis no país, como o hatch compacto E-JS1, derivado do antigo J2. A chegada de rivais mais baratos e modernos, porém, afetou a competitividade da linha. Em agosto, a revista Autoesporte revelou que a marca havia deixado de vender o SUV elétrico E-JS4 e o sedã E-J7, reduzindo a gama praticamente ao E-JS1 e à picape Hunter.

Em visita do Motor1.com a duas concessionárias da marca em São Paulo, a antiga loja da avenida Gastão Vidigal estava praticamente vazia, com apenas um funcionário e três exemplares do pequeno elétrico. Toda a operação comercial havia sido transferida para a sede da empresa, no bairro do Limão, na zona norte da capital. Lá, Nicolas Habib, filho de Sérgio e CFO do Grupo SHC, explicou que a empresa tentava mudar o modelo de negócios, concentrando as vendas na internet e no atendimento por telefone, enquanto cerca de 150 oficinas credenciadas seguiriam responsáveis pela manutenção e pelo pós-venda.

Nicolas também explicou por que a marca desistiu de lançar o E-JS3, hatch elétrico que chegou a ser homologado e preparado para enfrentar BYD Dolphin Mini e Geely EX2. Segundo ele, a volta do Imposto de Importação de 35% sobre carros elétricos inviabilizou os preços planejados. Para comparação, o E-JS1 emplacou apenas 119 unidades no primeiro semestre de 2026, contra 42.946 exemplares do Dolphin Mini no mesmo período.

O que acontece com o JS8 Pro

Mesmo com a linha reduzida, o executivo reafirmou ao Motor1.com que pretendia ampliar novamente a gama ainda em 2026. A promessa era apresentar em meados de novembro o JS8 Pro, SUV de sete lugares com porte semelhante ao Jeep Commander e ao CAOA Chery Tiggo 8. Com o novo pedido de recuperação, fica a dúvida se o compromisso será mantido: até o momento, o grupo SHC não deu novos detalhes, datas ou confirmações sobre o modelo.

Para o mercado brasileiro, o caso mostra como é difícil sustentar uma marca importada diante de mudanças tributárias e da chegada de concorrentes chinesas mais baratas e modernas. A segunda recuperação judicial, menos de dois anos depois do fim da primeira, deixa em aberto o futuro da JAC no país e o destino de seus planos de lançamento.

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