Completar o nível do óleo com um lubrificante diferente do que está no motor é uma dúvida comum, e a resposta depende de três características: viscosidade, classificação API e base do óleo. Segundo Arley Barbosa, coordenador da Comissão Técnica de Lubrificantes da AEA – Associação Brasileira de Engenharia Automotiva, a mistura é menos arriscada quando essas três características são respeitadas. Fora disso, há riscos para o motor.
Como os óleos são classificados
O óleo lubrificante é um dos elementos essenciais para o bom funcionamento do motor, e por isso é preciso respeitar a especificação e os prazos de troca estipulados pelo fabricante. Em carros com consumo elevado de óleo, o mais seguro é andar sempre com um frasco do mesmo lubrificante que está no motor, para completar o nível quando for preciso.
Os lubrificantes são categorizados de três formas:
- pela viscosidade, indicada por dois números separados pela letra "W", como 0W20 e 10W30;
- pela classificação API, identificada por duas letras;
- pela base, que pode ser mineral, sintética ou semissintética.
Mesma especificação, marcas diferentes
Imagine que você usa um óleo da marca X e, na hora de completar, o posto só tem a marca Y. Nesse caso, misturar é menos arriscado, desde que viscosidade, classificação e base sejam respeitadas. Barbosa afirma que não são esperados desvios operacionais ou incompatibilidades.
De acordo com o especialista, os aditivos detergentes, dispersantes, antidesgaste e antioxidantes de marcas renomadas são quimicamente compatíveis e mantêm a sinergia na proteção contra o desgaste abrasivo e corrosivo. Ele acrescenta que os óleos básicos têm solvência controlada, o que mantém os aditivos solubilizados e evita a decantação em condições normais de operação.
Viscosidades diferentes: o que muda
A montadora define a viscosidade com base em vários aspectos do motor. Nos motores mais modernos, as folgas são menores graças à maior precisão dos processos de produção, e por isso as viscosidades estão cada vez menores. Todo o sistema de lubrificação e as peças banhadas pelo óleo são dimensionados para a viscosidade padrão.
Um óleo mais "grosso" que o original gera esforços adicionais e faz o lubrificante demorar mais a chegar às partes superiores do motor. Já nos motores que exigem viscosidade alta, um óleo mais "fino" forma uma película reduzida e pode danificar os anéis de segmento e as bronzinas.
Barbosa explica que misturar viscosidades diferentes altera a formação da película lubrificante (filme hidrodinâmico) e a proteção da superfície. O resultado não segue uma média ponderada linear simples e pode ser imprevisível. Motores modernos de baixa viscosidade dependem ainda de um filme HTHS (High Temperature High Shear) muito específico para reduzir atritos e ganhar eficiência.
A mudança também afeta sistemas que dependem do óleo para funcionar, como os tuchos hidráulicos e os comandos de válvulas variáveis. Segundo o especialista, usar um óleo mais viscoso resultará em falhas de sincronismo, perda de potência e aumento de emissões.
Bases diferentes: risco químico e para as vedações
Existem óleos de bases diferentes com a mesma viscosidade, e misturá-los também é danoso. Barbosa explica que pode haver incompatibilidade química, degradação dos aditivos e alteração das propriedades físicas do lubrificante. Ao misturar um óleo de base mineral, o balanço de solvência pode mudar. A incompatibilidade entre pacotes de aditivos de tecnologias diferentes pode romper o equilíbrio, levando à precipitação de aditivos e até à formação de depósitos sólidos.
As bases sintéticas também se comportam de formas distintas com as vedações. Nas palavras do especialista, os ésteres causam estufamento/inchaço, enquanto as PAOs (Polialfaolefinas – Grupo IV) podem causar encolhimento. Misturar bases diferentes desequilibra esse balanço e provoca fadiga prematura das vedações e vazamentos.
A combinação mais danosa é a de óleos minerais convencionais, usados em motores mais antigos, com sintéticos de alta performance. Ela pode desequilibrar a solubilidade dos aditivos e provocar reações químicas adversas que comprometem a lubrificação. A mistura mais segura é a de óleos do Grupo III com bases diferentes, quimicamente estável e parecida com a receita usada pelos fabricantes para criar os lubrificantes semissintéticos.
E em uma emergência?
Se o nível do óleo estiver abaixo do recomendado e não houver uma opção compatível, é aceitável misturar lubrificantes de especificações diferentes. A condição é fazer a troca completa assim que possível.
Para o motorista brasileiro, a orientação é manter no carro um frasco do mesmo óleo que está no motor, principalmente em veículos que consomem mais lubrificante. Na falta dele, a mistura só deve ser vista como solução de emergência e seguida pela troca completa, respeitando sempre a especificação e os prazos do fabricante.
