quinta-feira, 15 de outubro de 2026

Receitas diferentes para o mesmo prato: carros dos anos 90 com mecânicas opostas e preços parecidos

Nunca houve tantos lançamentos de carros no mundo, mas boa parte deles repete a mesma receita mecânica. A FlatOut! parte dessa observação para lembrar, com exemplos dos anos 90, como modelos de preço semelhante podiam ter projetos radicalmente diferentes. Só a China lançou mais de 650 modelos para o mercado local no primeiro semestre de 2025, segundo a plataforma chinesa Dongchedi.

Muitos lançamentos, pouca variedade técnica

Segundo a matéria, nem todos esses lançamentos são carros inteiramente inéditos: atualizações, reestilizações e novas configurações entram na conta. Ainda assim, um terço deles é de modelos realmente novos. No Brasil, o efeito é visível em menor escala, com SUVs, crossovers e picapes de origem chinesa ocupando a pauta dos sites do setor.

O autor aponta que a oferta se concentra em dois ou três tipos de veículo, justamente os segmentos que mais dão dinheiro. Há também uma normalização técnica e legislativa: os motores de um litro turbo, base da pirâmide, são em sua maioria limitados em 116 cv por restrições fiscais de IPI. Os híbridos chineses usam motor 1.5 turbo auxiliado por um ou mais motores elétricos, e os elétricos, sem diferença tangível à primeira vista, tendem a parecer muito iguais.

O resultado, na avaliação do texto, é uma variedade relativa. Um Jeep Avenger não se confunde com um novo HB20, nem o Nissan Kicks com o VW Tera ou o Fiat Pulse, mas por baixo da carroceria pulsa o mesmo tipo de motor, com diferença de potência de no máximo 10 cv.

Populares e esportivos: Corsa contra Fusca, Uno Turbo contra Corsa GSi

O primeiro exemplo é de janeiro de 1994. O Chevrolet Corsa Wind chegava com injeção eletrônica, ergonomia e interior caprichados, e virou mania nacional. Concorria em preço com o Fusca "Itamar", que a VW vendia desde 1993, projeto antigo e de experiência oposta.

  • O Corsa tinha motor OHC Família I de 50 cv, era silencioso, mas reagia de forma sonolenta ao acelerador.
  • O Fusca usava boxer de 1.600 cm³ com 57 cv, arrancava mais rápido, mas era barulhento e instável nas curvas.
  • Os dois chegavam a cerca de 144 km/h reais no plano.

O Wind teve sucesso comercial muito maior. O Fusca durou pouco menos de 3 anos nessa segunda encarnação.

No segmento esportivo, o texto compara o Uno Turbo e o Corsa GSi 16v, que nunca foram confrontados lado a lado em testes cronometrados. O Uno, com 1.4 turbo e 118 cv, ganhou fama de "38 carregado". O Corsa GSi, com 1,6 litro e 16 válvulas importado da Hungria, tinha 108 cv. Ambos chegaram a 192,6 km/h na pista circular da GMB, mais que Gol, Kadett e Escort.

  • O Uno acelerou em menos de 9 segundos na Quatro Rodas.
  • O Corsa fez 9,2 segundos na Autoesporte.
  • O Uno era mais súbito e exigente; o Corsa, mais linear e discreto.

O Uno Turbo fundou uma tradição de motores turbo na Fiat, e o GSi obrigou o Gol GTi a adotar cabeçote de 16 válvulas.

Luxo: Omega contra Passat B5

O terceiro exemplo é o de despedida e estreia no mesmo mês de 1998. Omega e Passat B5 custavam 39 mil dólares, tinham velocidade final declarada de cerca de 215 km/h e aceleração de 0 a 100 km/h em cerca de 9,5 segundos com câmbio manual.

O Omega usava um seis-em-linha nascido em 1962 nos Estados Unidos, com muito torque em baixa e média rotação, mas que não gostava de girar alto. Tinha tração traseira e já era abandonado aos poucos pela Chevrolet, com simplificação de equipamentos. O Passat tinha tração dianteira e um motor EA113 turbo com cinco válvulas por cilindro, de 150 cv e 21,4 kgfm entre 1.750 e 4.600 rpm. Havia ainda uma versão aspirada de 125 cv.

O Passat foi sucesso de crítica, mas nem tanto de público, e sua sofisticação cobrava a conta na oficina. Para o autor, um parecia o carro do pai e o outro, do filho bem-sucedido.

A conclusão da FlatOut! é que a variedade técnica de antes não deve ser romantizada, mas faz falta. Para o mercado brasileiro atual, dominado por SUVs, híbridos e elétricos de mecânica parecida, o recado é que um pouco dessa diversidade seria bem-vinda também nos carros normais de hoje.

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