Margaret Hamilton, a engenheira que cunhou o termo "engenharia de software" e liderou a equipe responsável pelo código de voo das missões Apollo, morreu em 30 de setembro, aos 90 anos. A informação só foi divulgada em 8 de outubro por sua filha, Lauren. Ao que tudo indica, a causa foi natural.
Da meteorologia ao programa Apollo
Nascida Margaret Heafield em 17 de agosto de 1936, em Paoli, Indiana, ela estudou Matemática no Earlham College, onde se formou em 1958, com especialização secundária em Filosofia. Foi lá que conheceu o marido, James Hamilton. Seu plano era fazer pós-graduação em matemática abstrata, mas o casal se mudou para Boston porque James ingressou na faculdade de Direito de Harvard. Para sustentar a casa, Margaret adiou os estudos e procurou emprego.
Em 1960, conseguiu uma vaga no departamento de Meteorologia do MIT, onde escrevia software de previsão do tempo para os computadores PDP-1 e LGP-30 sob o comando do professor Edward Lorenz, que depois desenvolveria os fundamentos da Teoria do Caos. Margaret aprendeu a programar na prática. Em seguida, foi contratada pelo Laboratório Lincoln do MIT para o Projeto SAGE, sistema de radar e defesa aérea criado pelos EUA durante a Guerra Fria.
Em 1965, ingressou no Instrumentation Lab do MIT, onde o computador de bordo da nave Apollo estava sendo projetado. Foi a primeira mulher a integrar a equipe de software da missão e chegou ao cargo de Diretora da Divisão de Engenharia de Software do laboratório. Passou a liderar o time que escrevia e testava o software de voo dos Módulos de Comando e Lunar das missões Apollo e, mais tarde, da estação Skylab.
Quando software virou engenharia
Em meados dos anos 1960, a palavra "engenharia" era reservada a quem lidava com coisas físicas, como estruturas, motores e circuitos. Programar era visto como trabalho secundário. Margaret defendia que sistemas de missão crítica exigiam os mesmos testes rigorosos e o mesmo conceito de tolerância a falhas das engenharias mecânica e aeronáutica, e passou a usar publicamente a expressão "Engenharia de Software". No início, especialistas em hardware da própria NASA faziam piada, mas mudaram de postura quando a equipe provou, na prática, que era possível prever, isolar e resolver falhas antes que acontecessem.
O hardware era enxuto. O Apollo Guidance Computer (AGC) tinha processador de 1,024 MHz e 4 KiB de memória RAM (2.048 palavras de 16 bits). A memória ROM, com cerca de 72 KiB, era tecida à mão, com fios de cobre passando por dentro ou por fora de anéis magnéticos. O software suportava até sete programas simultâneos. Margaret projetou pessoalmente as Telas de Prioridade (Priority Displays): em emergências, o software podia interromper o painel dos astronautas e exibir um alarme de alta prioridade. Para evitar comandos precipitados, ela orientou os astronautas a contar até cinco antes de tocar em qualquer botão.
O teste definitivo: o pouso da Apollo 11
Em 20 de julho de 1969, a menos de três minutos de o Módulo Lunar Eagle tocar o solo, os alarmes 1202 e 1201 acenderam no painel. O radar de aproximação, mantido ligado em espera, enviava 6.400 sinais falsos por segundo ao computador, consumindo cerca de 13% da capacidade do processador. Quando Buzz Aldrin digitou o comando 1668, o AGC ultrapassou o limite de sete programas simultâneos.
Em vez de travar ou reiniciar, o software aplicou o conceito de "kill and recompute": descartou as tarefas de baixa prioridade, preservou os dados vitais de posição e velocidade e dedicou os ciclos do processador ao motor de descida. Em Houston, o engenheiro Jack Garman reconheceu os códigos e o diretor de voo Steve Bales deu o "Go". Neil Armstrong assumiu o controle manual nos metros finais, e o módulo pousou no Mar da Tranquilidade.
Reconhecimento e legado
Após a era Apollo, Margaret cofundou empresas de tecnologia e desenvolveu linguagens de sistemas voltadas a eliminar erros antes de o código ser escrito, influenciando projetos do Exército americano, aeronaves com controle fly-by-wire e os computadores do Ônibus Espacial. Em 2003, recebeu da NASA o Exceptional Space Act Award, com prêmio de US$ 37.200. Em 2016, recebeu do presidente Barack Obama a Presidential Medal of Freedom. Também foi laureada com o prêmio Ada Lovelace (1986), tornou-se Fellow do Computer History Museum (2017) e foi introduzida no National Aviation Hall of Fame (2022).
Para o mercado brasileiro, o legado está na garagem: injeção eletrônica, freios ABS, controle de estabilidade e ECUs seguem a mesma lógica de tolerância a falhas e priorização de tarefas críticas que Margaret ajudou a consolidar. Mesmo para quem prefere carros analógicos, a eletrônica embarcada de qualquer carro moderno passa pela engenharia de software que ela defendeu.
