A Justiça suspendeu o julgamento da dívida da Kia para abrir espaço a um acordo com o Governo Federal. O prazo é de 30 dias. O resultado da negociação pode destravar um projeto industrial aguardado há décadas, a construção de uma fábrica da marca coreana no Brasil. A pendência supera R$ 6 bilhões e está ligada a incentivos recebidos nos anos 1990.
Origem da dívida e próximos passos na Justiça
A dívida remonta aos anos 1990. Naquela época, a Asia Motors, então pertencente à Kia, recebeu incentivos para instalar uma fábrica no Brasil. A unidade prometida não saiu do papel, e a dívida resultante desse compromisso passou a acompanhar os planos da marca para produzir veículos no país.
Se as partes não chegarem a um entendimento dentro do prazo, o assunto volta à pauta judicial na sessão marcada para 3 de dezembro. Essa data indica apenas a retomada da análise do caso. Ela não representa uma decisão definitiva sobre a dívida nem sobre a instalação da fábrica.
A Kia pede ao Governo Federal o perdão do débito para avançar com a construção de uma unidade local. O projeto depende diretamente dessa negociação. Segundo a Autoesporte, as conversas já estão encaminhadas, e a possibilidade de perdão da dívida ganhou força nas tratativas. A Kia Corporation, procurada pela publicação, não havia respondido até a divulgação das informações. Por isso, não há manifestação oficial da matriz sobre o andamento das negociações.
Piracicaba é uma das possibilidades
Uma das alternativas em estudo é instalar a futura fábrica em Piracicaba, no interior de São Paulo, até 2028, caso haja acordo com o governo. A previsão associada ao projeto é de:
- 5 mil empregos diretos;
- mais de 15 mil postos indiretos.
Esses números dependem da concretização da fábrica.
A escolha de Piracicaba também poderia atender à Hyundai, que já produz veículos na cidade. A unidade da Hyundai opera no limite de 215 mil veículos por ano, e as dimensões do terreno impedem sua ampliação. Nesse cenário, abre-se espaço para um segundo complexo destinado às duas marcas.
Ainda não há definição sobre quais veículos seriam montados nessa eventual instalação. O grupo Hyundai-Kia, porém, prepara lançamentos compactos e médios para o Brasil. A plataforma K3, apresentada no mercado brasileiro pelo i20, está ligada a esses planos. Eles incluem novas gerações dos SUVs Bayon e Creta e duas picapes.
Mudança na operação e desempenho de vendas
A negociação industrial ocorre em paralelo a outra mudança potencial. A Kia comunicou ao grupo Gandini o desejo de reassumir o controle de suas operações brasileiras. O movimento pode encerrar uma parceria de 34 anos. O importador não comenta oficialmente o tema, e a saída dele depende do acerto entre matriz e governo. Se a negociação avançar, a transição pode ocorrer até o fim do ano. Isso alteraria a estrutura comercial da Kia antes mesmo de uma eventual fábrica começar a operar.
A marca atua no país desde o início dos anos 1990 e teve entre seus veículos conhecidos a van Besta e o SUV médio Sportage. Mais recentemente, a alta do dólar elevou os preços de seus carros no Brasil e contribuiu para a redução do volume de vendas. Até setembro, a Kia registrou 4.218 veículos vendidos, crescimento de 39% diante do mesmo período do ano passado, apesar de manter participação limitada no mercado.
O Bongo, montado no Uruguai, liderou os emplacamentos da marca com 3.104 unidades, seguido pelo Sportage MHEV, com 513 registros. A linha brasileira também reúne Sorento, Niro HEV, Stonic MHEV, Carnival HEV e os elétricos EV9 e EV5.
O que está em jogo para o mercado brasileiro
Para o mercado brasileiro, o prazo de 30 dias pode definir se a Kia sai do papel com uma produção local, como a marca busca há décadas. O resultado depende de um acordo sobre uma dívida acima de R$ 6 bilhões e de uma resposta oficial da matriz, que ainda não se manifestou. Enquanto isso, seguem em aberto o desfecho do projeto industrial, os modelos que seriam produzidos e o futuro da relação com o importador atual.
