A história da Fiat no Brasil costuma ser contada a partir de Betim, mas a marca também ganhou forma e nome próprios na Argentina. Lá nasceu a IAVA, sigla para "Industria Argentina de Vehículos de Avanzada", preparadora que transformou modelos comuns da Fiat em esportivos artesanais, como o 128 IAVA 1100, o 133 T IAVA e o 147 Sorpasso.
Como nasceu a IAVA
A empresa surgiu em 1971, numa época em que o esporte a motor se consolidava como paixão nacional na Argentina. A Fiat já produzia veículos no país desde meados do século 20, por meio da filial Fiat Concord, e rapidamente se tornou uma das marcas mais vendidas do mercado local. Ao mesmo tempo, crescia a demanda por carros de apelo esportivo, tanto para o dia a dia quanto para track days e competição.
A IAVA foi fruto de uma colaboração entre a Fiat Concord e um grupo de concessionários e engenheiros argentinos apaixonados por carros de competição. O objetivo era criar versões apimentadas dos modelos comuns da marca usando peças de prateleira e os recursos disponíveis. Os carros não eram produzidos em massa: eram edições limitadas, com montagem e acerto artesanais. O engenheiro Juan Carlos Fisanotti foi o grande responsável técnico, e as intervenções iam além do visual, com retrabalho de componentes internos do motor, carburação, escape, suspensão e freios.
Do 128 ao 133: a evolução dos esportivos
O ponto de partida foi o Fiat 128 IAVA TV (Turismo Veloz) 1100, apresentado em 1971. A mecânica original de 1.116 cm³, de cerca de 60 cv, recebeu carburador de corpo duplo Weber IDF 13 40/40, coletor de admissão exclusivo e comando de válvulas mais agressivo. O resultado foi 71 cv a 7.000 rpm, 12,2 kgfm de torque e velocidade máxima de 160 km/h, com o carro pesando pouco mais de 850 kg. Por dentro, trazia conta-giros graduado até 10.000 rpm e um banco do motorista com bolsa de ar inflável ajustável.
Em 1974, a IAVA ampliou o motor para 1.300 cm³ e iniciou uma sequência de versões:
- IAVA TV 1300 Franja Ancha (1974–1977): carburador Solex 34/34 e 82 cv a 6.750 rpm.
- IAVA Doble Línea (1977–1978): feito sobre a carroceria do 128 L, com 88 cv e velocidade máxima de 163 km/h.
- IAVA 100 HP 3 Líneas: 100 cv com carburador Solex 36/36 e velocidade máxima declarada de 168 km/h.
- IAVA TV 1300 Europa (a partir de meados de 1978): variantes de 88 cv e 102 cv, 0 a 100 km/h em menos de 10 segundos e 170 km/h de máxima.
A IAVA também atuou sobre o Fiat 133, modelo de origem SEAT com motor e tração traseiros, produzido na Argentina entre 1977 e 1982. O motor de 903 cm³ rendia 37 cv na versão comum, que levava 32,4 segundos de 0 a 100 km/h. Entre 1979 e 1980, o 133 T IAVA passou a entregar 55 cv a 6.500 rpm, baixou o 0 a 100 km/h para 18,4 segundos e chegou a 133 km/h.
147 Sorpasso e as pistas
Com a chegada do Fiat 147 à Argentina, em 1981, a receita IAVA foi aplicada ao hatch. O 147 Sorpasso usava um motor 1.3 diferente do brasileiro, derivado do Fiat 128 italiano, e entregava 90 cv a 6.400 rpm. Acelerava de 0 a 100 km/h em 8,2 segundos, chegava a 165 km/h e é apontado como o Fiat 147 mais potente e veloz já feito. Foram fabricadas apenas 403 unidades entre 1982 e 1984.
A IAVA esteve ligada ao automobilismo, com presença no Turismo Carretera e em corridas de velocidade. Também criou a Copa Fiat 128 IAVA, campeonato monomarca que reuniu dezenas de pilotos. Já o fim da empresa veio com os problemas econômicos e sociais do país e com a mudança de estratégia da Fiat, que passou a focar em veículos de baixo custo. O último 128 montado pela IAVA saiu em 1981, e a falência formal foi decretada em 1985.
Para o público brasileiro, a história mostra como a Fiat seguiu caminhos distintos no Mercosul e como o 147, tão associado ao Brasil, ganhou na Argentina uma versão esportiva praticamente desconhecida por aqui. Os exemplares sobreviventes tornaram-se itens de coleção e símbolo de uma era de ouro da engenharia automotiva sul-americana.
