domingo, 11 de outubro de 2026

Lecar tem habilitação no Mover suspensa e vira alvo de investigação do MPF

A Lecar, empresa que promete ser uma fabricante brasileira de automóveis, voltou ao noticiário por um motivo pouco animador. O governo federal suspendeu a habilitação da marca no programa Mover por falta de documentação que comprovasse investimentos em pesquisa e desenvolvimento no país. Além disso, o sistema de vendas da companhia, chamado Compra Programada, passou a ser investigado pelo MPF, após ser provocado pelo Ministério da Fazenda.

Por que a Lecar perdeu a habilitação no Mover

A medida foi imposta pelo Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC). O motivo é a ausência do relatório referente ao ano-calendário de 2024, que deveria detalhar a execução dos projetos de engenharia e inovação tecnológica. A suspensão foi aplicada de forma retroativa, a partir de 1º de maio de 2026.

O acesso aos benefícios fiscais do Programa Mobilidade Verde e Inovação exige contrapartidas claras das empresas cadastradas. Sem a comprovação, as marcas perdem o direito de abater impostos, o que afeta diretamente o custo de produção dos veículos.

A sanção não atingiu só a Lecar. Fornecedoras de componentes e tecnologias para o setor, como Simoldes Aço Brasil e 3Sat Tecnologia, também perderam suas certificações pelos mesmos motivos de atraso documental. A regularização de todas depende do envio imediato dos relatórios atrasados ao governo.

O que é o Mover

O Mover é o substituto do Rota 2030 e dita as regras da política industrial automotiva, com metas de longo prazo. O programa prevê a injeção de R$ 19,3 bilhões em incentivos fiscais até 2028, priorizando a descarbonização e a eficiência energética do setor. As montadoras usam esse crédito tributário para reduzir o impacto do IPI Verde.

As regras atuais impõem a análise do ciclo do poço à roda, que mede a pegada de carbono desde a geração do combustível ou da energia até o uso no veículo. Para 2027, a cobrança ficará mais severa, com a exigência do ciclo do berço ao túmulo, que abrange da fabricação ao descarte dos automóveis.

Promessas que não saíram do papel

Lançada em 2022, a Lecar prometia o desenvolvimento de um veículo elétrico nacional. Com o tempo, o projeto mudou para um REEV, isto é, um elétrico de autonomia estendida. Ele usaria o mesmo motor do Renault Kardian, fornecido pela Horse, como gerador para o sistema elétrico, com peças da WEG.

O planejamento inicial previa o início da produção em uma fábrica no Espírito Santo ainda em março, o que não se concretizou. Até agora, o portfólio da marca existe apenas na forma de protótipos expostos em feiras. A empresa, comandada por Flavio Figueiredo de Assis, tenta se estabelecer no mercado nacional há quatro anos.

A investigação sobre a Compra Programada

A Compra Programada negocia o Lecar 459 e o futuro Lecar Campo em planos de longo prazo, de até 72 meses de parcelamento. A promessa é entregar o carro na metade do contrato, sem cobrança de juros.

A equipe da Fazenda concluiu que a empresa não tem autorização legal para operar consórcios nem para organizar compras antecipadas no mercado nacional. O inquérito enviado à procuradoria aponta quatro indícios técnicos que caracterizam operações financeiras irregulares.

  • A empresa cobra taxa de adesão de novos representantes comerciais, vendendo a promessa de entrega de um produto que ainda não tem homologação.
  • Usa gatilhos psicológicos de urgência para forçar transferências imediatas.
  • A própria fabricante declara depender da entrada de novos consumidores para sustentar o fluxo de caixa e honrar o compromisso com os primeiros investidores.

A Comissão de Valores Mobiliários (CVM) também foi acionada, já que a promessa de ganhos ou entregas de alto valor sem lastro é o marcador clássico de sistemas financeiros insustentáveis. O empresário à frente da marca admite abertamente que não há modelo pronto.

O que isso significa para o mercado brasileiro

O caso mostra como o Mover cobra resultados concretos de quem quer acessar os incentivos fiscais, e o atraso na entrega de relatórios já basta para suspender a habilitação. Para o consumidor, o episódio reforça a cautela diante de marcas que vendem planos de longo prazo para carros ainda sem homologação nem produção. A regularização da Lecar no programa depende do envio dos relatórios pendentes, e o desfecho da investigação do MPF ainda está em aberto.

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