O presidente da Stellantis América do Sul, Herlander Zola, admitiu que a indústria automobilística ocidental, de modo geral, errou ao demorar a perceber o modelo verticalizado de produção da China. Segundo ele, esse desenho resultou em custos bem menores e abriu caminho para o passo seguinte: a exportação para o mundo. A declaração foi dada em entrevista e destacada na Coluna Fernando Calmon nº 1.422.
Modelo verticalizado e as barreiras tarifárias
De acordo com a coluna, tanto os Estados Unidos quanto a União Europeia ergueram barreiras tarifárias diante do avanço chinês. O Brasil, ao contrário, demorou a perceber as consequências. Para Zola, a solução não está apenas em subir o imposto de importação.
O executivo defende outros caminhos, como incentivar os fabricantes de veículos a comprar aço, pneus, plásticos e outros componentes de fornecedores instalados no País. Ele também alertou que, se nada for feito, "é melhor produzir carros na China, desmontar e trazer para cá". Em sua avaliação, é importante criar regras de estímulo.
Fernando Calmon acrescenta que o Governo Federal ainda não se deu conta de que taxar a importação de veículos desmontados (CKD) ou semidesmontados (SKD) em 35% é uma barreira insuficiente. Segundo o colunista, EUA e União Europeia reagiram com alíquotas muito maiores para proteger empregos locais, dispensando a antiga norma da Organização Mundial de Comércio que estipulou alíquota máxima em 35%. Ele também ressalta que as marcas chinesas exportam com grande ajuda governamental, sem transparência quanto a custos trabalhistas reais e outros subsídios. Pressionadas pela Europa, já começam a instalar fábricas no continente e talvez até nos EUA, se estes permitirem.
Elétricos e incentivos estaduais
Zola também comentou a ascensão dos modelos elétricos no mercado brasileiro. Admitiu que, em alguns estados, "quem compra um carro de motor a combustão precisa ganhar um prêmio". Ele se referia, por exemplo, à isenção total do IPVA por tempo indeterminado para elétricos em Pernambuco. Outros estados também criaram incentivos.
Na capital paulista, elétricos e híbridos, inclusive os semi-híbridos, estão dispensados do rodízio pelo final de placa.
Mercado cresce, mas com ressalvas
A coluna aponta que a indústria já comemora o crescimento acelerado das vendas. A Anfavea prevê agora 3,1 milhões de veículos leves e pesados comercializados até o fim do ano, alta de 15,2% sobre 2025. As primeiras previsões da entidade estimavam um avanço de apenas 2,7%. A Fenabrave, normalmente conservadora, admitiu que "a demanda permanece forte" e atribuiu parte do resultado à maior oferta de híbridos convencionais e plugáveis, além de elétricos.
No mês passado foram emplacados 281,4 mil veículos, resultado que não se via desde dezembro de 2014.
Há, porém, ressalvas. Enquanto o mercado cresceu 18%, a produção nacional avançou apenas 9%. As importações subiram 30,4% de janeiro a setembro de 2026 frente ao mesmo período do ano anterior, e as marcas chinesas ampliaram a participação ao crescer 106,4%. O presidente da Anfavea, Igor Calvet, ressalvou que boa parte da alta vem de veículos total ou parcialmente desmontados da China, sem recorrer ao parque brasileiro de autopeças e com pouca mão de obra envolvida.
O setor de pneus também sente a pressão: o presidente da Pirelli para a América Latina, Cesar Alarcon, disse que "entramos em campo com três jogadores a menos contra pneus importados chineses".
O que significa para o mercado brasileiro
O alerta de Zola chega num momento de vendas aquecidas, mas com a produção local crescendo menos que o mercado e as importações, sobretudo chinesas, ganhando espaço. Como o próprio colunista reconhece, ainda não se sabe como esse cenário vai evoluir. O debate em torno de regras de estímulo à compra de componentes nacionais e de tarifas mais firmes para veículos desmontados tende a ganhar peso nas discussões sobre o futuro da indústria no País.
