terça-feira, 21 de abril de 2026

Como o Rolls-Royce Phantom ditou o padrão do luxo mundial ao longo de 100 anos

Rolls-Royce Phantom. Este automóvel é único em tantos aspectos que uma simples definição resulta em fracasso. Qualquer articulação de palavras terá de extravasar muito o comentário habitual feito sobre um veículo de quatro rodas que ele é afinal de contas (e de uma maneira cruamente desapaixonada). Uma tentativa? É um objeto de culto que incorpora os valores que o criaram há um século, passando pela qualidade de produção artesanal próxima da perfeição, superioridade inconteste e o raro atributo de conseguir pertencer ao passado, ao presente e ao futuro, com a mesma autoridade.

Desembarquei em Bilbao, na Espanha, com a disposição de admirar alguns dos melhores artefatos que o design e a engenharia automobilística criaram ao longo do tempo. O destino da viagem ao País Basco era a Torre de Loizaga, lugar onde se encontra guardada aquela que, até onde se sabe, é a maior coleção de Rolls-Royce do mundo, com nada menos que 45 exemplares, incluindo unidades de seis das oito gerações do lendário Phantom. Para a exposição do centésimo aniversário do modelo, a própria marca providenciou os outros dois exemplares das gerações que faltavam (as duas mais recentes).

100 anos RR Phantom
O autor da reportagem, entre as raridadesDivulgação/Quatro Rodas

Na primeira metade dos 40 quilômetros desde o aeroporto de Bilbao até a Torre de Loizaga viajei relaxadamente no banco traseiro de um Phantom da geração atual, a oitava, lançada em 2018, explorando as possibilidades de massagem e climatização dos bancos e contemplando o teto estrelado do Phantom à espera de poder ver o movimento ocasional de uma estrela cadente. Foram minutos que passaram depressa, tal o conforto de rolamento e a qualidade do isolamento acústico deste mítico Rolls.

A segunda parte do trajeto foi ao volante, para poder acumular também essa experiência e apreciar o renovado painel de bordo, que se rendeu a alguns dos benefícios da inteligência digital em que vivemos, ainda que mantendo suficientes comandos analógicos, com que podemos estabelecer um relacionamento físico e não unicamente tátil.

100 anos RR Phantom
Coleção particular reúne 45 exemplares da marcaDivulgação/Quatro Rodas
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Mesmo em ritmos suaves, percebe-se que a potência é algo que não acaba e que qualquer leve toque no acelerador se torna um impulso vigoroso (5,4 s de 0 a 100 km/h), mas seguro e, quando me preparava para procurar um modo de condução (porque a direção me pareceu um pouco leve), fui avisado pelo especialista da RR que me acompanhava de que “os Phantom não têm modos de condução porque a afinação que lhes é dada é a mais perfeita que pode existir”.

100 anos RR Phantom
Desde sempre, o Phantom foi referência de luxo e sofisticaçãoDivulgação/Quatro Rodas

O Phantom VIII, que deve continuar em produção até pelo menos 2030, ano em que o Grupo BMW declarou que deixará de fazer motores a gasolina (embora, atualmente, muitas das intenções no campo da eletrificação estejam sendo revistas). O Phantom é equipado com motor V12, a gasolina, turbo, com 6,75 litros de cilindrada e um rendimento máximo de 571 cavalos e 91,8 kgfm de torque. A tração é sempre traseira, e a direção pode ser dianteira ou, opcionalmente, nas quatro rodas. A suspensão usa molas pneumáticas e amortecedores com vários níveis de afinação, dispondo de uma função que detecta os ressaltos na parte frontal do veículo e se adapta para trabalhar da forma mais suave possível.

100 anos RR Phantom
A geração mais recente herdou toda a tradição da marcaDivulgação/Quatro Rodas

A instrumentação tem uma tela TFT de 12,3” com diferentes modos de visualização, que, como antes, não possui conta-giros, mas sim um indicador de reserva de potência. Ao centro, há uma segunda tela OLED de 14,1” para a multimídia, que é touch e háptica e obedece comandos de voz.

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100 anos RR Phantom
O mascote Espírito do Êxtase é tão cultuado quanto o próprio carroDivulgação/Quatro Rodas

Se o chauffeur quiser agradar aos ilustres passageiros prestes a chegar ao carro, basta dizer “Preparar para noite de gala”, e a sala de estar sobre rodas ajusta a luz ambiente (há mais de 20.000 possíveis combinações, segundo a fábrica), aciona a função de massagem nos bancos (aplicando pressões sobre pontos de tensão, tal como seriam feitas pelas mãos de um fisioterapeuta) e até seleciona uma playlist de música clássica a ser emitida pelo sistema áudio de 1.400 watts, capaz de fazer as pessoas se sentirem em uma sala de concertos. Outra possibilidade é escolher a opção “Hora Dourada”, que deixa o interior banhado em tons quentes, similares aos de um pôr do sol, com luz que pulsa ao ritmo do som que sai dos alto-falantes.

100 anos RR Phantom
Cada unidade da série especial ganhou uma placa numeradaDivulgação/Quatro Rodas

E porque a experiência não estaria completa sem o envolvimento do olfato, a mais recente geração do Phantom está equipada com o Sistema Personalizado de Fragrâncias criteriosamente selecionadas, que são expelidas por atomizadores ultrassônicos (para que não deixem resíduos nos tecidos) e o sistema de climatização de quatro zonas inclui agora um programa “Ar da Montanha” que ioniza e umidifica o ar que entra no habitáculo para lhe dar o frescor dos Alpes suíços. Falando nos cinco sentidos, nem o paladar foi esquecido, porque o RR tem frigobar e taças para champanhe. É outro mundo.         

Mito em oito capítulos

A exposição organizada em Bilbao reuniu as oito gerações do carro que ao longo da história transportou monarcas, chefes de Estado, líderes da indústria e visionários, e serviu de tela para artistas e ícones culturais como Andy Warhol, Elvis Presley, John Lennon e Elton John, só para citar alguns

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RR PHANTOM I (1925-1929)

Em plena Era do Jazz e da ascensão da art déco, o Phantom I sucedeu e superou o lendário Silver Ghost, que já era aclamado como “o melhor automóvel do mundo”. O Phantom I estreou um motor de seis cilindros em linha de 7,7 litros, promovendo ainda mais a suavidade e o silêncio. As carrocerias feitas sob encomenda refletiam o glamour e o otimismo do período, enquanto os avanços técnicos garantiam um conforto supremo para rolar nas malhas rodoviárias em rápida expansão na Europa e nos Estados Unidos.

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RR PHANTOM II (1929-1935)

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É a materialização do glamour das grandes viagens em GT. Refina a experiência de condução, por mais que a pessoa mais importante a bordo raramente estivesse sentada logo atrás do volante. As suas proporções mais modernas permitiram aos encarroçadores desenhos mais elegantes e aerodinâmicos, e, apesar da incerteza econômica da época, o Phantom II tornou–se uma declaração de resiliência e bom gosto duradouro, nas mãos de milionários industriais, estrelas de cinema e membros da realeza.

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RR PHANTOM III (1936-1939)

Lançado no auge da Era Dourada de Hollywood, o Phantom III tornou-se protagonista na Sétima Arte e simbolizou o estilo de vida glamouroso das grandes estrelas de cinema. Foi o primeiro Rolls–Royce a ser equipado com um motor V12, aproveitando a experiência e o conhecimento da marca na tecnologia de motores de avião. A suspensão dianteira era independente e freios hidráulicos nas quatro rodas, enquanto o design das carrocerias iam de limusines formais a obras-primas modernistas e aerodinâmicas.

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RR PHANTOM IV (1950-1956)

No pós-guerra chegou um modelo ultraexclusivo e que teve apenas 18 exemplares, cada um reservado à realeza e aos chefes de Estado. Com um motor de oito cilindros, foi adaptado para funções cerimoniais e diplomáticas, e continua a ser um dos RR mais venerados. O primeiro foi encomendado para o duque de Edimburgo e para a princesa Elizabeth, mais tarde rainha Elizabeth II. (O modelo que pertence à presidência da República do Brasil não é um Phantom. Trata-se de um Silver Wraith 1952.)

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PHANTOM V (1959-1968)

Apresentado em plena revolução cultural, este modelo manteve a tradição e se tornou referência entre estadistas e milionários do mundo do espetáculo. Servido por um motor V8 de 6,2 litros com caixa automática, combinava proporções imponentes com performances quase insolentes. Foi o preferido dos líderes globais e das estrelas, como sua majestade a rainha Elizabeth II, e o líder do grupo musical The Beatles, John Lennon, cujo modelo de 1967, com pinturas vibrantes, se tornou um símbolo dos rebeldes nos anos 1960.

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PHANTOM VI (1968-1990)

Produzido ao longo de mais de duas décadas, foi o último Rolls-Royce a apresentar um chassi independente da carroceria. Era igualmente movido por um motor V8 e estreava um sistema de ar-condicionado multizona. Produzido em quantidades extremamente limitadas, se consagrou como sendo a escolha preferida para cerimoniais e também inúmeros colecionadores exigentes, do mundo inteiro, representando uma ponte entre o artesanato tradicional e a expectativa máxima de luxo moderno.

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PHANTOM VII (2003-2017)

Lançado em 2003, foi o primeiro desde que a BMW comprara a marca britânica. Construído sobre um avançado chassis de estrutura espacial de alumínio e equipado com um refinado motor V12, oferecia um equilíbrio incomparável entre serenidade e potência, proporcionando a famosa experiência de “viagem num tapete voador”. Posteriormente, ficou também disponível nas versões Longa (com distância entre-eixos ampliada), Drophead e Drophead Coupé, tendo se tornado um ícone contemporâneo e um artigo de coleção muito procurado.

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PHANTOM VIII (2017-PRESENTE)

Foi desenvolvido com a plataforma chamada Arquitetura de Luxo, um avanço em relação à estrutura espacial utilizada na geração VII e concebida para sustentar todos os futuros automóveis produzidos em Goodwood. Em 2025, para celebrar os 100 anos do modelo, a RR criou uma versão especial e limitada a 25 unidades, batizada como Centenary Private Collection, com preço ao redor de 3 milhões de euros, cerca de R$ 19 milhões       

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