terça-feira, 6 de outubro de 2026

Lat.Bus 2026 foca em diversidade energética e montadoras alfinetam chineses

Entre os dias 11 e 13 de agosto, São Paulo recebeu a Lat.Bus 2026, uma das principais feiras de mobilidade urbana da América Latina. O evento reuniu fabricantes de chassis e encarroçadoras, além de painéis e debates sobre o futuro do transporte coletivo e os caminhos para reduzir as emissões. Ao lado dos lançamentos de ônibus elétricos, híbridos e a biodiesel, ganhou força a preocupação da indústria brasileira com o avanço das fabricantes chinesas.

Chineses no mercado e o discurso da indústria

De janeiro a julho de 2026, segundo dados da Federação Nacional da Distribuição de Veículos Automotores (Fenabrave), a BYD aparece na segunda posição entre as marcas de ônibus, com 175 unidades emplacadas. Ela fica atrás da Caio Induscar, que fornece carrocerias para diferentes chassis, inclusive os da própria BYD. Considerando apenas julho, porém, a fabricante chinesa liderou, com 60 unidades emplacadas.

Durante o evento, o presidente da Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea), Igor Calvet, afirmou que o Brasil precisa conciliar a renovação da frota e a descarbonização com a preservação da engenharia e da capacidade produtiva instaladas no País. Segundo ele, fabricantes estrangeiros avançam não apenas no mercado brasileiro, mas também em países vizinhos que historicamente compravam veículos produzidos no Brasil.

"Preservar a nossa engenharia e a nossa capacidade produtiva diante dessa concorrência não é resistência à mudança. É a defesa dos empregos qualificados e de um conhecimento técnico que os fabricantes instalados no Brasil levaram 70 anos para construir", afirmou Calvet.

Rubem Bisi, presidente da Associação Nacional dos Fabricantes de Ônibus (Fabus), também defendeu programas consistentes e sustentáveis para financiar a atualização tecnológica do transporte coletivo. Para ele, é necessário criar condições equilibradas de competição para uma indústria que gera empregos, arrecada tributos, desenvolve soluções de baixa emissão e exporta veículos e tecnologia.

Algumas montadoras fizeram questão de destacar que suas soluções são desenvolvidas e testadas no Brasil para atender às características do mercado nacional. O argumento chegou ao pós-venda: com produtos desenvolvidos localmente, a rede de concessionários e o suporte técnico estão mais próximos do cliente, e a promessa é de uma solução mais rápida do que a de um produto totalmente importado.

Elétricos, biodiesel e gás: os lançamentos das montadoras

A Volvo levou dois novos produtos. O primeiro foi o chassi elétrico BZR-LE 6x2, destinado a carrocerias de até 15 metros e capacidade para até 110 passageiros. Ele usa a nova geração de baterias Volvo CUBE, de alta densidade energética, e pode alcançar até 300 quilômetros de autonomia. Com carregamento de alta potência, suporta até 250 kW por meio da tomada CCS2 e pode realizar uma carga completa em até duas horas. O segundo foi o B320R B100 Flex 6x2, com motor D8K, que pode operar com B100, o biodiesel puro, ou diesel convencional, em qualquer proporção. A Volvo também anunciou o sistema i-See, que usa inteligência artificial para otimizar acelerações e trocas de marchas e será oferecido nos chassis B380R, B420R, B460R e B510R, todos com motor de 13 litros.

A Mercedes-Benz, que completa 70 anos de operações no Brasil em 2026, anunciou o início das vendas do chassi eO500UA, destinado a ônibus articulados. A grande novidade, porém, foi o eCity, ônibus 100% elétrico desenvolvido sobre a plataforma do chassi OF, líder de vendas da marca no mercado brasileiro. Ele também será vendido já encarroçado, estratégia que coloca a marca em confronto mais direto com fabricantes chinesas que adotaram o mesmo modelo de negócio. Com 12 metros de comprimento e piso alto, terá autonomia média de até 150 quilômetros. A chegada ao mercado está prevista para 2027, e o preço ainda não foi divulgado.

A Volkswagen Caminhões e Ônibus, que completa 45 anos no Brasil, passa a oferecer painel digital em toda a linha de ônibus. Na eletromobilidade, apresentou o e-Volksbus 18H, voltado ao fretamento, e o e-Volksbus 22H, destinado a operações urbanas, incluindo corredores BRT. O 22H pode transportar até 82 passageiros. Os dois terão duas opções de baterias: com oito packs, a autonomia chega a 200 quilômetros; com 12, pode alcançar 250 quilômetros. No diesel, a marca mostrou o novo motor SUPER de 11 litros, com versões de 350, 390 e 430 cv, e o sistema Turbo Dosing, que usa o turbo para aplicar o Arla 32 e reduzir o consumo do reagente.

A Scania apresentou o chassi elétrico K300 6x2 4, para carrocerias de até 15 metros e até 105 passageiros, com autonomia entre 250 e 300 quilômetros. Com quatro baterias, a capacidade total é de 356 kWh, dos quais 320 kWh são utilizáveis, e a recarga leva cerca de 62 minutos. Com cinco baterias, são 445 kWh, com 400 kWh úteis, e recarga de cerca de 73 minutos. A máquina elétrica C1-4 entrega 300 kW, equivalente a aproximadamente 410 cv.

A Iveco, que vive um bom momento no mercado brasileiro, mostrou a Daily Minibus na configuração 17+1 para fretamento e levou o chassi 17-210 G, movido 100% a gás, produzido na fábrica de Córdoba, na Argentina. Também apresentou o 17-280, que marca a estreia da marca no segmento com motor de quatro cilindros, o FPT N45, de 210 cv e 720 Nm.

Encarroçadoras: Marcopolo e Caio Induscar

A Marcopolo apresentou o Paradiso G8 TEC, com retrovisores digitais, câmeras com visão 360° e monitoramento do motorista por inteligência artificial, capaz de identificar sinais de fadiga, distração e comportamentos de risco. Novas aletas aerodinâmicas, desenvolvidas com o Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA), podem reduzir consumo e emissões em até 3,5%. A empresa também mostrou o novo Torino, no mercado desde 1983, que na linha 2027 recebeu novo conjunto óptico dianteiro, climatização aprimorada, novos pacotes de isolamento térmico e acústico e novos assentos.

A Caio Induscar levou uma nova linha urbana, com a segunda geração do eApache VIP (elétrico), o Apache VIP IV (diesel), o bMillennium (biometano e gás) e o eMillennium (elétrico).

Para o mercado brasileiro, a Lat.Bus 2026 deixou claro que o setor de ônibus avança em várias rotas energéticas ao mesmo tempo: elétrico, biodiesel, gás e biometano. Ao mesmo tempo, os fabricantes instalados no País reforçam o argumento da produção e do suporte locais para enfrentar a concorrência chinesa, que já disputa a liderança mensal de emplacamentos.

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